”Ou faz agora, ou as pessoas vão morrer na rua. O Brasil inteiro colapsou”
O neurocientista Miguel Nicolelis voltou a defender medidas drásticas no Brasil para frear a pandemia de coronavírus. Em entrevista ao jornal O Globo, publicada na edição deste sábado (20), ele usa a expressão “hecatombe” para definir a situação no país. E fala em “colapso funerário”, além do sanitário. Se nada for feito, afirmou, o país poderá atingir 500 mil óbitos no meio do ano.
“É duro dizer isso, mas vai piorar muito se não fizermos nada. E tem que ser a nível nacional, com medidas sincronizadas”, afirmou o também professor da Universidade Duke, nos Estados Unidos.
“Não adianta fechar um estado e deixar o resto aberto porque o vírus está em todo lugar, se espalha pelas rodovias, pelos aeroportos.
Vamos chegar a 300 mil óbitos com uma rapidez impressionante. Podemos chegar a 500 mil na metade do ano, no meio do inverno.”
Abertura indiscriminada
Segundo ele, o país se aproxima de quase 3 mil mortes diárias em consequência das eleições de novembro e do que ele chama de aberturas indiscriminadas. “Com as festas natalinas e o carnaval, explodiu de vez. Como medidas mais rígidas não aconteceram, infelizmente as previsões se concretizaram, e chegamos a um colapso. Hoje é difícil prever qual vai ser a taxa de óbitos daqui a duas, três semanas. A gente não consegue ver limite ou pico”, diz Nicolelis.
Com pacientes na fila de espera em São Paulo, o cientista afirma que o governador João Doria e o prefeito Bruno Covas (ambos do PSDB) precisam ter “coragem” e fechar a Grande São Paulo e a capital.
“Não dá para continuar empurrando com a barriga. Ou faz agora, ou as pessoas vão morrer na rua. São Paulo já colapsou há dias. Quando cruza 90% de ocupação, já foi. Só na logística para achar o leito e transferir, as pessoas vão morrer. O Brasil inteiro colapsou”, lamenta.
Ele também criticou o fato de o Brasil não ter se preparado, estocando medicamentos. E comparou a situação a uma guerra, em que o inimigo ocupou o território, sem que o país se defendesse. Porque, criticou:
“quem deveria criar nossa estratégia de defesa renunciou ao papel de defender a sociedade da maior tragédia humanitária da nossa história”.
Sobre a posição de Jair Bolsonaro de que só ele pode decidir sobre lockdown, Nicolelis afirmou que o documento encaminhado ao Supremo Tribunal Federal será “prova definitiva de que as intenções da Presidência não são voltadas ao bem maior da sociedade”. E pediu a intervenção de outros poderes. “O presidente botou no papel o que o mundo inteiro já sabia, que ele quer fazer o oposto do necessário para evitar um genocídio no Brasil”, afirmou o cientista.
fonte RBA

*Miguel Angelo Laporta Nicolelis é um médico e cientista brasileiro, considerado um dos vinte maiores cientistas em sua área no começo da década passada pela revista de divulgação para leigos Scientific American. Foi considerado pela Revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes do ano de 2009.
