O suicídio é a segunda principal causa de mortes de pessoas jovens em todo o mundo
Na semana passada um bancário da agência do Bradesco em Blumenau, pôs fim à própria vida. Fernando tinha 31 anos, onze anos de banco e exercendo a função de gerente administrativo, é mais um a engrossar essa terrível estatística. Utilizou a arma do vigilante para cometer o ato dentro da agência, após o expediente externo.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde – OMS e da Organização Pan-Americana de Saúde – OPAS, de 2018, o suicídio é a segunda principal causa de mortes de pessoas jovens em todo o mundo. Ainda de acordo com ambas as instituições, a cada ano 800 mil pessoas cometem suicídio e para cada uma conta-se inúmeras tentativas não concretizadas.
A coordenadora geral de Saúde do Trabalhador da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, Karla Baêta, em reportagem publicada no sítio do Metrópoles em setembro de 2018 afirma que “os dados sobre adoecimento mental ou suicídio relacionado ao trabalho, no Brasil, ainda são cinzentos, imprecisos. Existe especialmente a dificuldade em se estabelecer nexo causal, ou seja, definir que a causa do suicídio ou da doença mental é o trabalho e não outro fator.”
As empresas, se prevalecendo das estatísticas que revelam ser o suicídio um fenômeno mundial que atinge todos os segmentos sociais, afirmam que esses casos estão muito mais relacionados às características e os problemas pessoais dos indivíduos do que ao trabalho, no entanto o psiquiatra francês Christophe Dejours, estudioso da saúde mental e do suicídio de trabalhadores, afirma “ O fato de as pessoas irem suicidar-se no local de trabalho tem obviamente um significado. É uma mensagem extremamente brutal, pior do que se possa imaginar – mas não é uma chantagem, porque essas pessoas não ganham nada com o seu suicídio. É dirigida à comunidade de trabalho, aos colegas, ao chefe, aos subalternos, à empresa. Toda a questão reside em descodificar essa mensagem.”
No Brasil as ocorrências na categoria bancária têm se intensificado nos últimos, pelo menos, vinte anos, fruto da reestruturação produtiva e do novo perfil do trabalho bancário, cada vez mais intenso e estressante. Na Caixa, em especial, diversos casos foram registrados recentemente, todos eles no ambiente de trabalho.
Marcelo Finazzi, bancário do Banco do Brasil, formado em administração e doutor pela Universidade de Brasília, cuja tese é justamente sobre o tema do suicídio na categoria bancária, participou do 1º Seminário Nacional de Saúde Mental dos Bancários da Caixa, organizado pela Fenae, realizado no dia 25 de setembro, e em sua exposição deixa claro que sobrecarga de trabalho, pressão por produtividade, multiplicidade de tarefas, exigência de alta performance e polivalência, combinados com um lugar de convívio em que ao invés da solidariedade, observa-se a duplicidade, a dissimulação, a “convivência estratégica” e a má fé, promovendo a ruptura dos laços de confiança, afetam intensamente a Saúde Mental dos trabalhadores de bancos.
A ausência de uma efetiva política de Estado somada à irresponsabilidade e a ganância dos grandes empresários, em especial os banqueiros, tem agravado o problema e contribuído para o fato de que nos últimos anos os índices brasileiros de atentados contra a própria vida têm aumentado, em sentido contrário ao que ocorre na maioria dos países.
Na Caixa a situação, lamentavelmente, não é diferente. Por inúmeras vezes as entidades representativas dos trabalhadores tentaram pautar o tema em mesa de negociação, porém jamais houve real vontade política de enfrentar o problema por parte da empresa, em que pesem algumas promessas.
Recentemente a Fenae realizou pesquisa sobre Saúde do Trabalhador dos empregados da Caixa e os dados sobre depressão, estresse e consumo de antidepressivos e ansiolíticos, confirmaram a suspeita de altos índices de sofrimento mental. A partir da pesquisa foi elaborado relatório entregue a alta direção da Caixa, mas apesar da preocupação manifestada, nada de concreto foi feito.
Com o objetivo de buscar uma saída que passe pela prevenção e a necessária melhora da organização do trabalho na empresa, a Fenae adotou recentemente algumas medidas, entre elas a contratação da equipe da psicóloga e professora da UnB Ana Magnólia Mendes, que irá elaborar um projeto para instrumentalizar cientificamente os dirigentes da FENAE e APCEFs para proposição de políticas e práticas sindicais e institucionais de prevenção das patologias do trabalho e do adoecimento no trabalho na Caixa. Outra iniciativa foi o lançamento da campanha “Não Sofra Sozinho” que além da produção de materiais de divulgação e esclarecimento aos empregados, está percorrendo o país levando o debate em parceria com as associações e os sindicatos.
Fonte: Observatório do Participante