Setembro Amarelo: Prevenção ao suicídio no mundo do trabalho (e entre nós, bancários)

O suicídio é um grave problema de saúde pública, mas antes disso, relaciona-se a situações pessoais que exigem muita atenção e cuidado.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio anualmente em todo o mundo, o que representa uma morte a cada 100 mortes registradas. No Brasil, são mais de 14 mil casos por ano, ou em média, 38 pessoas por dia. Entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio é a quarta causa de morte mais recorrente. Preocupantemente, enquanto as taxas globais de suicídio diminuíram 36% entre 2000 e 2019, nas Américas houve um aumento de 17% no mesmo período.

 

Suicídio no contexto do trabalho

O ambiente de trabalho é determinante para a saúde mental. Em 2024, o Brasil registrou um recorde de afastamentos por transtornos mentais, com mais de 470 mil licenças médicas – um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Transtornos como ansiedade e depressão foram as causas mais comuns. Um levantamento com 300 empresas mostrou que tentativas e pensamentos de suicídio no trabalho aumentaram 367% em 2023. A média de idade das pessoas atendidas era de 31 anos, sendo 66% mulheres.

Estudos apontam que dentre as causas do agravamento da saúde mental dos trabalhadores está a precarização das condições de trabalho e a flexibilização das leis trabalhistas no Brasil (PALMA e outros, 2024).

Empresas são relutantes em estabelecer uma ligação direta entre o trabalho e o suicídio. Mesmo quando ele acontece no próprio local de trabalho ou quando a pessoa deixa um relato apontando o emprego como causa de seu sofrimento, é muito difícil comprovar essa relação. Isso acontece porque prevalece uma tendência de ignorar o papel do mundo do trabalho, atribuindo o evento a problemas de adaptação da pessoa ou a uma perda de controle pessoal.

Há estudos que apontaram, por exemplo, que após o suicídio de um bancário, o silêncio significativo por parte dos colegas e da chefia acabou isentando simbolicamente a empresa de qualquer responsabilidade. Dessa forma, a organização do trabalho permanece totalmente dissociada de uma tragédia tão grande (DEJOURS e BÉGUE, 2010).

Outros estudos apontam que o suicídio relacionado ao trabalho expõe a ruptura dos laços de solidariedade entre os colegas. Ele é um reflexo direto do individualismo que é incentivado pela cultura de competitividade extrema dentro das empresas.

 

Saúde mental e suicídio na categoria bancária

A categoria bancária é particularmente vulnerável a problemas de saúde mental. Embora os bancários representem apenas 0,8% do emprego formal no Brasil, foram responsáveis por 2,81% dos afastamentos acidentários por saúde mental em 2024. Um estudo alarmante indica que, em 2022, os bancários foram responsáveis por 43,72% dos afastamentos por transtornos mentais no país (SPBANCÁRIOS 2024). Esse adoecimento está diretamente relacionado à pressão por metas abusivas, assédio moral institucionalizado, competitividade exacerbada e à organização do trabalho no setor bancário.

A precarização do trabalho, caracterizada por vínculos empregatícios frágeis, pressão por produtividade, terceirização e redução de direitos, gera uma precarização subjetiva. Isso se manifesta como um sentimento de insegurança, desesperança e perda de sentido no trabalho, contribuindo significativamente para o sofrimento psíquico.

Nos bancos, a digitalização acelerada, o fechamento de agências e a intensificação das metas têm criado um ambiente torturante, onde o isolamento e a autoculpabilização são comuns. A naturalização desse adoecimento é perigosa: sintomas como fadiga, desânimo, ansiedade e até palpitações passam a ser vistos como normais no trabalho.

E para piorar, observa-se um aumento de páginas e perfis nas redes sociais de “consultores de carreira” direcionados a bancários e trabalhadores do sistema financeiro, com o objetivo de “aumentar a performance” e “bater todas as metas” a qualquer custo.

 

O que os bancos precisam para prevenir o suicídio

O movimento sindical insiste que os bancos precisam admitir o seu papel no adoecimento dos bancários.

A partir disso, precisam criar instrumentos que acabem com cultura de assédio e da pressão, com o fim da política de metas abusivas, combatendo de modo efetivo do assédio moral institucionalizado. Essa cultura organizacional de competitividade e individualismo precisar ser combatida mediante a criação de canais de denúncia seguros, nos quais trabalhadores possam reportar assédio e outras violências no trabalho.

Envolver os trabalhadores nas decisões sobre seu trabalho e criar espaços coletivos de escuta também podem dar sentido à atividade e reduzir o sofrimento.

O que a sociedade deve fazer para prevenir o suicídio

É fundamental falar sobre o assunto de forma aberta e responsável, tratando a saúde mental como uma prioridade e não como um tabu, rompendo estigmas.

Também precisamos apoiar e exigir políticas públicas efetivas de prevenção ao suicídio e de promoção da saúde mental, inclusive no ambiente de trabalho.

A organização coletiva e a ação sindical são ferramentas poderosas para pressionar por mudanças estruturais nas empresas e na legislação trabalhista, por isso, o fortalecimento do movimento sindical e de organizações sérias é imprescindível.

Defender um SUS forte e acessível é vital para que todas as pessoas, independentemente de sua condição socioeconômica, tenham acesso ao cuidado em saúde mental.

Busque ajuda!

Fique atento aos sinais: Mudanças no padrão de sono, isolamento repentino, comentários como “prefiro morrer”, diminuição do rendimento e do autocuidado são alertas importantes. Há pessoas que carregam por muito tempo esse tipo de pensamento e sentimento, mas não precisa ser assim. Compartilhe isso com alguém de confiança, que possa apoiar você e busque ajuda profissional. Esse, geralmente, é um passo decisivo!

Se achar necessário, não deixe de entrar em contato com o CVV: O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito 24h pelo telefone 188 (ligação gratuita), além de chat e e-mail.

Todos podemos oferecer apoio: Se desconfiar que alguém está em risco, encontre um momento calmo para conversar. Ouça com a mente aberta, sem julgamentos, e ofereça seu apoio.

 

A prevenção ao suicídio é um compromisso de todos. Vamos quebrar o silêncio, cobrar ações e cuidar uns dos outros.

 

Com informações da SEEB Jundiaí, Contraf-CUT, FENAE, BancáriosSP e scielo.br/j/csc/a/mK6pypbHBYkRDmkhD5m5WqS/

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