Semana passada um assunto tomou conta das discussões no mundo. Em revide ao protesto de atrizes dos EUA, na entrega do Globo de Ouro, que vestiram-se de preto contra o assédio em Hollywood, artistas francesas publicaram um “manifesto” defendendo homens e sua insistência em abordar mulheres para fins sexuais. A essa insistência deram o absurdo nome de “sedução”.
O irônico é que justamente na França, depois das acusações de assédio contra o produtor norte-americano Harvey Weinstein, as reclamações de assédio aumentaram em 30%, levando o presidente francês, Emmanuel Macron, a proclamar que “a igualdade entre mulheres e homens seria a grande causa do seu mandato”.
Além disso, sob a hashtag #Balancetonporc (denuncie teu porco), milhares de mulheres vêm relatando o assédio que sofrem. Alguns casos já estão na Justiça, como as queixas de estupro contra o estudioso islâmico Tariq Ramadan e contra Georges Tron, secretário de Estado e ex-prefeito de uma cidade da França, também denunciado por assédio a duas ex-funcionárias.
Um ex-líder da Juventude Socialista também foi acusado de agressão sexual por várias mulheres, enquanto a promotoria de Paris abriu pelo mesmo motivo uma investigação contra o ex-diretor Eric Monier, da rede de televisão France 2.
De acordo com uma pesquisa realizada pela Defensoria de Direitos da França, uma em cada cinco mulheres declarou ter sido vítima de assédio sexual no trabalho ao longo de sua vida profissional.
Em dezembro de 2017, o Observatório Nacional de Crimes revelou que, pelo menos, 267 mil pessoas, essencialmente mulheres, foram vítimas de abusos sexuais de diversos graus, de apalpamentos a relações sexuais não consentidas, no transporte público entre 2014 e 2015. A Fundação Jean Jaurés também mostrou que 83% das mulheres dizem temer por sua integridade física quando saem à rua de noite ou no transporte público.
E é nesse cenário de terror que o manifesto se insere, banalizando essa violência e ignorando o sofrimento de milhões de mulheres, vítimas de assédio e violência sexual.Oportuno citar trecho da resposta das feministas contra esse manifesto: “Os porcos e seus (suas) aliados (as) têm razão de se inquietar.
Cada vez que os direitos das mulheres progridem, que as consciências acordam, as resistências aparecem”.E as resistências serão derrubadas até que ninguém mais entenda violência como “sedução”.
Escrito por ROSE GOUVÊA é advogada, militante LGBT de Jundiaí há 12 anos e presidente da Comissão da Diversidade Sexual da OAB de Jundiaí.