Mulheres têm mais medo de sofrer assédio sexual nas ruas do que de serem assaltadas

Pesquisa dos institutos Locomotiva e Patrícia Galvão mostra que, no Brasil, sete em cada 10 mulheres receberam olhares e cantadas inconvenientes no deslocamento e até 36% já foram vítimas de importunação e assédio sexual

Mulheres sentem mais medo de sofrer importunação e assédio sexual durante o deslocamento pelas cidades do que de serem assaltadas. De acordo com uma pesquisa recente, realizada pelos institutos Locomotiva e Patrícia Galvão, até 34% do público feminino se sente inseguro durante o trajeto pela cidade onde vivem, frente a 24% dos homens. O levantamento “Percepções sobre segurança das mulheres no deslocamentos pela cidade” foi realizado com 2.017 pessoas entre os dias 30 de julho e 10 de agosto deste ano.

Essa insegurança, segundo as entrevistadas, é justificada pelas experiências. Cerca de 69% delas já receberam olhares insistentes e cantadas inconvenientes durante o deslocamento. E ao menos 36% já foram vítimas de importunação ou assédio sexual. O estudo revela que, no caso das mulheres, elas foram mais vítimas desse tipo de violência do que de outros crimes, como assalto, furto ou sequestro relâmpago, em que 34% das entrevistadas relataram já ter sido vítimas durante o deslocamento.

Os reflexo desses episódios são diversos na vida das mulheres. Até dois terços mudaram o comportamento de alguma forma, evitando, por exemplo, passar por locais desertos e durante à noite. E 53% tiveram um abalo psicológico após o episódio de violência, conforma destaca a diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, Jacira Melo.

Insegurança cotidiana

“A pesquisa revela que, por insegurança, as mulheres mudam comportamentos e as suas rotinas. Em busca de maior segurança elas adotam medidas que comprometem a sua autonomia, como mudar de trajeto ou até pedir para alguém a esperar na porta de casa. (…) é um ambiente de insegurança que as mulheres convivem cotidianamente em que elas buscam várias alternativas e caminhos para seguir um pouco mais seguras”,  descreve.

Um dos maiores medos das mulheres que participaram da pesquisa é no momento em que elas precisam usar o transporte público, sobretudo ônibus, onde 45% delas se sentem inseguras. Entre as entrevistadas, 54% já sofreram importunação ou assédio sexual nesse meio. Mas a rua ainda é o lugar onde as mulheres mais se sentem inseguras. Pelo menos 51% delas não sentem segurança nos pontos de ônibus e apenas um quarto se sente muito segura mesmo quando estão perto de casa. O medo de andar nas ruas é ainda maior à noite. Até 68% das mulheres contaram ter muito medo de saírem sozinhas no período no bairro em que moram.

Jacira aponta alguns fatores que contribuem para essa insegurança. “A falta de iluminação pública, a ausência de policiamento, ruas desertas e a grande quantidade de espaços públicos abandonados. Questões que podem ser solucionadas com a implementação de políticas efetivas, além de ações de zeladoria mais frequentes. As cidades precisam estar mais cuidadas, iluminadas, com mais polícias e segurança pública nos espaços. Estamos falando de algo que é muito conhecido pela população e que a pesquisa traz um retrato de insegurança, mas que pode ser melhor tratado e resolvido se nós tivermos uma visão, principalmente do setor público, de trazer essas questões tão essenciais”, observa a diretora executiva.

FONTES
MATÉRIA: RBA
FOTO: Marcelo D. Sants/Estadão

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