Incorporação Nossa Caixa pelo BB

BB deve incorporar a Nossa Caixa 
VALOR ECONÔMICO - FINANÇAS - SÃO PAULO - 15/08/08 - Pg. C-08

Enquanto espera para qualquer momento a formalização da proposta de incorporação pelo Banco do Brasil (BB), a Nossa Caixa promoveu uma verdadeira faxina no segundo trimestre, incluindo a demissão de funcionários antigos e a contratação de novos, com salários menores, a zeragem do estoque de crédito tributário e novo reforço das provisões para questionamentos cíveis.
Tantas providências simultâneas afetaram profundamente os resultados do primeiro semestre, ontem divulgados por Milton Luiz de Melo Santos, presidente da Nossa Caixa. Segundo Santos, o BB deve estar agora elaborando sua proposta pelo banco controlado pelo governo paulista, pelo qual manifestou interesse no final de maio, conforme fato relevante divulgado no dia 21 daquele mês, informando o início da negociação.
Foram dois meses de consulta ao data room, que abriu em junho e fechou dia 5 passado, com as informações necessárias para a avaliação da Nossa Caixa. Também freqüentaram o data room, localizado em sala de reunião do terceiro andar da sede, no centro velho de São Paulo, os dois consultores nomeados pelo governo paulista para avaliar os ativos estaduais, o Citibank e o Fator. Mais de 80 profissionais examinaram os papéis.
Uma decisão já foi tomada. Concluiu-se que a melhor saída para operação não ser questionada por bancos privados, também interessados em disputar a Nossa Caixa, seria transformá-la em uma incorporação, pela qual acaba o banco incorporado e seu CNPJ desaparecem imediatamente, com o incorporador assumindo suas obrigações e ativos.
Mas essa fórmula jurídica exigiu que a Nossa Caixa também contratasse um consultor para avaliá-la e apoiar o processo formal. Foi contratado para esse papel o JP Morgan, com dispensa de licitação notório conhecimento sobre o assunto. Santos informou que o JP Morgan deve concluir sua avaliação ainda neste mês.
Assim que o BB entregar sua proposta, o passo seguinte será submetê-la à Assembléia Legislativa. Aprovada pelos políticos, a proposta ainda deverá ser submetida à assembléia geral de acionistas das duas empresas, BB e Nossa Caixa, ambas de capital aberto. Enquanto isso, disse Santos, a Nossa Caixa “toca sua vida como sempre”. Nesse primeiro semestre, porém, o banco esmerou-se em novidades. O banco divulgou um lucro líquido de R$ 410,9 milhões no segundo trimestre, acumulando R$ 525,7 milhões no semestre, 36,4% superior ao de igual período de 2007. O retorno sobre o patrimônio líquido médio foi de 38,3%.
O resultado foi favorecido por um crédito tributário ativado de R$ 609,9 milhões. Com isso, informou Santos, o estoque de crédito tributário do banco foi praticamente zerado. O crédito foi ativado para neutralizar um forte reforço de provisões para contingências cíveis feito pelo banco, em um total de R$ 377,2 milhões no semestre, dos quais aproximadamente R$ 185 milhões referem-se a questionamentos jurídicos feitos por detentores de depósitos judiciais.
Segundo a Nossa Caixa, houve um ingresso acima do esperado de ações judiciais que pleiteiam o pagamento das diferenças de remuneração dos depósitos judiciais e de poupança à época da vigência dos planos Bresser, Verão, Collor I e II. Também pesou nesse crescimento a revisão de expectativas do departamento jurídico do banco em relação ao êxito de ações que estavam em andamento. No segundo trimestre, forma iniciados 18,5 mil novos processos pleiteando o pagamento dessas diferenças; no primeiro trimestre, foram 13,9 mil. A expectativa é que a entrada de novos processos vai diminuir, até porque prescreve no final deste ano o prazo para reclamações referentes ao Plano Verão.
O banco ainda registrou despesas extraordinárias com a rescisão de contratos de 1.078 funcionários, que demandaram R$ 28,3 milhões. Outros 631 foram contratados, com salários mais baixos que beneficiarão o gasto com folha de pagamento nos próximos meses.
Outra despesa importante foi parcela do pagamento da compra da folha de pagamento dos funcionários do governo do Estado de São Paulo, que representou R$ 239,2 milhões. No total, as outras despesas operacionais da Nossa Caixa somaram R$ 730,2 milhões, com 73,6% de expansão sobre o primeiro semestre de 2007.
À pergunta se a Nossa Caixa teria tido prejuízo não fosse a ativação de crédito tributário, Santos prefere responder com dados sobre o resultado operacional recorrente, que foi de R$ 142,4 milhões no primeiro trimestre e R$ 175,4 milhões no segundo, somando R$ 317,8 milhões no semestre. Incluindo as contas extraordinárias, o resultado operacional foi de R$ 100,5 milhões no primeiro trimestre e de R$ 38,2 milhões negativos no segundo.
A carteira de crédito da Nossa Caixa cresceu 9,2% no segundo semestre e 29,1% em doze meses, atingindo R$ 10,6 bilhões ao final de junho. A carteira de pessoa física aumentou 10,3% no trimestre e 25,7% em doze meses para R$ 7,9 bilhões, sendo que só o consignado teve aumento de 10,6% no trimestre e 34,4% em doze meses, chegando a R$ 4,1 bilhões. Já a carteira de pessoa jurídica cresceu 6% no trimestre e 40,4% em doze meses para R$ 2,7 bilhões.
Santos afirmou que as operações de consignado são mais lucrativas para a Nossa Caixa do que para outros players do mercado, que vêm reclamando da pressão sobre as margens. Um dos motivos é que o funding da Nossa Caixa é mais barato uma vez que conta com R$ 15,2 bilhões em depósitos judiciais e R$ 10,7 bilhões em poupança, remunerados a TR mais 6% ao ano. Além disso, acrescentou, a Nossa Caixa usa principalmente sua própria rede para distribuir o produto e não precisa pagar comissões a pastinhas. Apenas neste ano é que o banco fez seis acordos com promotores e para a compra de R$ 100 milhões de consignado originado pelo Banco BMG.

   

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