Home Office: o mocinho que pode virar bandido

Para Paulo Malerba, presidente do Sindicato dos Bancários de Jundiaí e região, processo terá sérias implicações no pós-pandemia, que deve ainda incluir intensificação da jornada de trabalho e demissões. *Matéria é destaque em nossa edição de junho do ‘Jornal dos Bancários’.

A pandemia trouxe um importante aliado ao distanciamento social. O home office, ou teletrabalho, tem sido a única forma possível de atuação para muitos profissionais de vários segmentos. É o que tem ocorrido com a categoria bancária. Uma das primeiras a conseguir se proteger com esse sistema por intervenção dos sindicatos para que os bancos mantivessem pessoas do grupo de risco trabalhando de casa. 

Já em abril, menos de um mês após a Covid-19 ser caracterizada como pandemia pela OMS, mais de 200 mil bancários (metade da categoria) já estavam protegidos com o sistema de home office. Somado a isso, os sindicatos conseguiram, por meio de várias negociações, manter o emprego dos trabalhadores até o final da pandemia, haja vista a alta taxa de demissões em outros setores em decorrência da quarentena, além de exigir toda a segurança nas agências, com controle de entrada de clientes, higienização diária e entrega de equipamentos de segurança a quem está atuando in loco.

Embora esteja sendo primordial, nesse momento de calamidade pública em todo o mundo, o home office pode passar de mocinho a bandido ao final da pandemia. Basta recordarmos como os banqueiros elogiam e  tentam implementar esse sistema há anos por tratar-se  de um fator estratégico para o capital como vantagem econômica, por exemplo, nos gastos com aluguel, energia elétrica, equipamentos, mas, acima de tudo, para desmantelar 

qualquer categoria, a exemplo da bancária, que é uma das mais fortes e unidas do país. 

Paulo Malerba, presidente do Sindicato dos Bancários de Jundiaí e região, destaca que a partir da pandemia esse processo do home office foi nitidamente acelerado. ‘’Obviamente, fomos favoráveis ao sistema para proteger os trabalhadores do contágio. Mas o que os bancos tentavam implementar há anos, conseguiram fazer em apena um mês’’. Para o presidente, esse processo terá sérias implicações no pós-pandemia, que deve ainda incluir intensificação da jornada de trabalho e demissões.

“Não há no Brasil uma categoria que tenha conquistado tantos direitos em nível nacional, com negociação unificada, apoiada por um Comando Nacional que negocia e vai para o enfrentamento todos os anos junto com a categoria. E, sem dúvida, para o capital isso precisa ser desconstruído’’, afirma Paulo.

‘’Isso tudo é resultado da Reforma Trabalhista e de toda flexibilização nas relações de trabalho aprovada nos governos Temer e Bolsonaro’’, lembra Paulo Malerba. ‘’O grande problema é que quanto mais tempo levar para que tudo volte à uma ‘normalidade’, maior será o desafio para enfrentarmos o sistema de teletrabalho’’. 

Paulo lembra ainda que da adversidade que vem com esse sistema. ‘’Não fica clara a divisão entre o trabalho e a vida privada. Começa a tornar-se comum os empregados trabalharem muito mais tempo e ficarem o dia todo, inclusive finais de semana, à disposição da empresa’’.

Outra questão primordial é que o teletrabalho afasta a categoria. Os trabalhadores perdem o contato uns com os outros e também com o Sindicato, o que, certamente, enfraquece a força e a  luta em vários segmentos. ‘’É como ocorre com os aplicativos hoje em dia. Não há força de negociação porque não há união. Como não se reconhecem, não se mobilizam’’. 

Prorrogar a CCT é fundamental

Sergio Kaneko, diretor de Comunicação do Sindicato e empregado da Caixa, lembra da importância da prorrogação do Acordo Coletivo dos bancários caso a Pandemia perdure até o vencimento dos acordos. ‘’Se não conseguirmos prorrogar nossa CCT e ela entrar em discussão dentro desta conjuntura provocada pela pandemia, o que caminha para o inevitável, poderemos ter muitas cláusulas específicas sobre o home office neste nosso novo acordo.O que antes era algo inconcebível’’. 

O direito à desconexão

Em entrevista para o jornalista Leonardo Sakamoto, do site Uol, o ministro do TST, Lélio Bentes Corrêa, avalia se o home office veio para ficar e a importância de o trabalhador ter o “direito à desconexão”

 ‘’Essa é uma experiência sobre a qual nós podemos falar com muita propriedade, porque, de uma hora para outra, passamos a trabalhar exclusivamente em home office. Um dos alertas mais importantes é a preocupação com a invasão da vida profissional se apoderando dos espaços da vida pessoal do trabalhador. Nesse momento é fundamental ter atenção ao que vários doutrinadores pregam, que é a necessidade da observância do “direito à desconexão”. Quando eu mando a mensagem para um colaborador meu no sábado, às 23h30, na expectativa que ele me responda, estou claramente infringindo esse direito à desconexão.

As estatísticas têm demonstrado um aumento na produtividade do trabalho em casa. Algumas empresas estão se dando conta da vantagem econômica que é não gastar com aluguel, energia elétrica, equipamentos. Mas há a necessidade de que não se imponham metas exageradas, que levem o trabalhador a uma jornada excessiva. E de atenção à dimensão de gênero. Vamos reconhecer: o trabalho em casa executado por um trabalhador e por uma trabalhadora com responsabilidades familiares são, infelizmente, ainda, no nosso país, situações completamente diversas.

Foi feita uma pesquisa em que 58% dos homens disseram que sim, estão contribuindo com tarefas domésticas e se sentem felizes por isso. O que seria ótimo, não fosse a pesquisa feita com as mulheres – só 3% delas concordaram. E não se pode permitir que, pelo fato de os trabalhadores estarem nas suas residências, se perca o seu senso de coletividade. A Convenção 177 da OIT, que trata do trabalho em domicílio, cobre aspectos como o direito à sindicalização. Só são excluídos aqueles trabalhadores de altíssima expertise, que são reconhecidos como independentes ou como trabalhos de consultoria’’.

Na França, direito à desconexão é lei desde 2017

Na França, mais de um em cada três trabalhadores ativos (37%) admitem que utilizam todos os dias uma ferramenta do trabalho fora do seu horário, segundo estudo recente do escritório Eléas. Ao mesmo tempo, cerca de 12% sofrem de esgotamento no trabalho, conhecido como síndrome do burnout, segundo a agência Technologia.

Para enfrentar o fenômeno, em 2017 a França instituiu o direito à desconexão, inscrito no código do trabalho. A medida, que integrou a polêmica reforma trabalhista, prevê que toda empresa com mais de 50 funcionários tenha de abrir negociações entre as partes para chegar a um acordo conforme às necessidades de cada lado. 

Várias empresas já deram passos no sentido de levar os diferentes lados envolvidos a se desconectarem, sem aguardar a evolução na legislação. Na Alemanha, a Volkswagen foi pioneira nesse campo. Desde 2011, o grupo impõe a uma parcela de seus funcionários um bloqueio ao acesso a seu correio eletrônico no celular entre 18h15 e 7h. Na França, a companhia de telefonia Orange criou uma regulamentação acordada com seus funcionários, pela qual estes devem definir um período de não utilização do correio eletrônico.

Nova ‘’normalidade’’ massacra as mulheres

fonte de pesquisa https://www.123rf.com/visual/search/97988490

O confinamento e a nova normalidade deixam as mulheres esgotadas, estressadas e dedicando mais horas à manutenção e cuidados da casa, filhos e maridos. Dados da Universidade de Barcelona mostram que as mulheres estão arcando com a maior parte da carga das tarefas domésticas durante o confinamento.

Com o fechamento das escolas, as mulheres precisaram encontrar uma forma de manter o cotidiano do trabalho, com as tarefas de casa e a presença dos filhos. O aumento da carga de trabalho, com todas essas ocupações somadas, tem sido imensa. E mulheres com filhos menores sofrem ainda mais. Algumas têm trabalhado de madrugada para dar conta de todas as tarefas.  

Estudo do site  The Conversation revela que as mães “sentem que estão o dia todo trabalhando”, que o acompanhamento escolar dos filhos costuma ficar a cargo delas ―o que virou “um elemento de ansiedade e estresse agregado”― e que uma nova estratégia frente a esta situação está sendo “o recurso de teletrabalhar durante a madrugada, seja adiando a hora de ir para cama ou levantando antes que o resto da família”.

>>Confira matéria completa do El País em https://bit.ly/3cEq5OF

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