Apesar da insegurança provocada pelas filas, da pressão, do volume e condições de trabalho, o empregado Caixa vem driblando o clima de tensão com sacrifício, coragem e disposição
A pandemia do coronavírus mexeu com os hábitos de todo mundo. Para os empregados Caixa, a mudança na rotina está sendo radical. Responsável por conduzir a maior parte das políticas públicas para conter a crise econômica, a Caixa está na linha de frente do pagamento do auxílio emergencial. Enquanto boa parte da população se recolhe, o empregado Caixa vai para linha de frente do atendimento, enfrentando aglomeração, pressão e até sacrificando a família para socorrer quem mais precisa. Para muitos, são ossos do ofício, para tantos outros, é uma satisfação desempenhar este papel.
Com as funções essenciais exercidas pelo banco, os trabalhadores da Caixa atendem nos guichês aos beneficiários dos programas sociais, aos trabalhadores e, agora também, aos informais e a todos que podem receber o auxílio emergencial. Neste cenário, parte dos empregados estão nas agências e parte em home office, mas todos com desafios diários que até pouco tempo eram imagináveis.
Os que atuam na linha de frente, cumprem suas jornadas com disposição para minimizar a desinformação e as incertezas da população que se acumula nas longas filas em todas as cidades brasileiras. Os que estão em trabalho remoto, buscam conciliar as novas situações do ofício com as exigências domésticas, que também foram sacudidas na emergência de saúde pública.
“Sinto muita apreensão dos colegas que estão à frente das agências por causa da quantidade imensa de pessoas que chega para receber o auxílio. Eles não têm medo de atender, mas vivem uma pressão constante”, observa o empregado Fábio Barbosa Viana. “Faltam empregados nos pontos de atendimento, o sistema é novo e com tudo digital para a população, fatalmente falha. Mas os colegas não têm muito o que fazer”, explica o bancário.
Após reestruturação do setor de origem onde trabalhava há 15 anos na área meio, Fábio precisou pedir transferência para outra cidade. Todo o processo de mudança foi atropelado pela nova realidade. Hoje, Fábio está lotado em Goiânia, mas trabalha remotamente de Porto Velho. Mora na casa do pai, enquanto faz contatos por telefone ou por e-mail com clientes que estão endividados e precisam de uma solução para voltar a honrar seus contratos.
Com dois filhos pequenos, ele segue se adaptando com a nova equipe de trabalho em reuniões por vídeo. No esforço para resolver vida pessoal e profissional o mais rápido possível, Fábio Viana acredita em si e na atitude dos colegas empregados da Caixa por boas causas. “Todos se esforçam bastante, sempre dão o melhor de si e se superam. É o que vejo sempre”, diz Fábio.
Além das operações bancárias
Confinamento, filhos fora da escola, tarefas escolares em casa, falta de suporte em logística doméstica, cuidados extra na hora de fazer supermercado, apoio da rede familiar ou tratamentos suspensos, suporte educacional à distância. Exemplos não faltam sobre o que está ou não em equilíbrio em meio à pandemia. Quem bem vive e estranha a situações como essas é a empregada da Caixa Eliângela Monteiro, de Porto Velho. Agora à frente dos atendimentos emergenciais, sua vida é só correria. Quando ganhou a tão sonhada promoção não pode dividir um abraço com os pais ou com os amigos.
O cotidiano de Eliângela tem ido além de resolver operações bancárias. “Hoje, o nosso maior trabalho é tirar das filas as pessoas que, de fato, não precisariam estar ali. Não há como não destacar a informação como o maior problema das pessoas que chegam nas agências. Somos três a quatro no atendimento, pedindo para que se evitem aglomerações, para que não precisem dormir nas filas”, diz Eliângela.
Nesta missão de orientar aos que recorrem ao socorro financeiro, eles estão nos grandes centros e nas pequenas cidades. Do município de Forquilhinha (SC), a empregada da Caixa Elaine Gai Torres se voluntariou para trabalhar diretamente no atendimento emergencial, quando viu os colegas gerentes tendo que se desdobrar para atender as imensas filas. Mesmo em cidades pequenas, a busca do auxílio é um retrato do desassossego dos que se impacientam com as filas. Lá, dispor de máscaras de proteção para se proteger acaba sendo luxo. Os bancários do único banco público no atendimento emergencial acabam fazendo além do que a operação bancária social exige.
“O segundo dia de pagamento emergencial foi especialmente difícil, porque o aplicativo não funcionou como gostaríamos. Pessoas ficaram na fila das 10h da manhã até as 2h da tarde, incluindo crianças e pessoas idosas, gente sem almoçar. E nós sem condições de acomodá-los dentro da agência”, conta Elaine.
“Duas horas depois que o sistema voltou, precisamos correr no atendimento e ficar mais duas horas além do trabalho para poder atender a todo mundo”, finaliza a funcionária. Ela também está trabalhando remotamente, mas preferiu atender a maior parte do tempo na agência “para ajudar as pessoas”.
Os trabalhadores que estão nas agências, mesmo usando seus EPIs (Equipamentos Proteção Individuais) para evitar contaminação, enfrentam um dia a dia sob forte exposição ao estresse e à doença. “A dificuldade que a gente vive é a pressão do atendimento. Nunca faltou equipamento de proteção. Temos e queremos fazer o melhor pelo povo, embora nem sempre somos reconhecidos”, finaliza.
A força que promove o papel social da Caixa
Neste novo cenário, muitas vezes o coração fica partido quando não se consegue ajudar a todos, outras vezes se enche de alegria porque mais um brasileiro saiu agradecido. São milhares os empregados que têm atendido ao chamado para cumprir a missão de ser um banco público e social.
A manauara Eliamara Lima tem sido uma dessas forças. Empregada Caixa há 15 anos, é ela e sua equipe quem atendem a quase 700 pessoas por dia na capital do Amazonas. Para ela, o trabalho não é uma guerra, é uma ação humanitária. “A Caixa é diferente. A gente não visa somente o lucro, a gente visa fazer esse trabalho social. Assim como entra uma pessoa que vai ter muito dinheiro para aplicar, também entra uma pessoa que quase não vai ter dinheiro nem conhecimento e que ainda não foi bancarizada”, contou.
Na nova rotina para atender o público, Eliamara não esquece dos equipamentos de proteção individual (EPIs), o perfume e o crachá da Caixa. “Quero dar o melhor atendimento possível para aquelas pessoas que estão ali, muitas vezes desde a madrugada. Eu vejo que eu posso fazer muito mais que só vender produto”, afirmou a bancária, que também sonha em ser juíza.
Para quem faz o atendimento à população, os riscos de contágio pelo coronavírus são maiores. Mãe de um menino de 17 anos, portador de transtorno do espectro do autismo, Eliamara contou que os cuidados estão redobrados também em casa. Só depois da higienização e de trocar de roupa é que ela se dirige ao filho. “Como ele é autista, precisa de cuidados especiais. Se ele pegar uma gripe, uma pneumonia, tem que sedar e onde ele vai ser internado?”, questionou. Em Manaus já eram mais de 5.200 casos de Covid-19 até a quinta-feira (30/04).
No sul do país, o orgulho também é uma das forças que movem Marla Gass, de Porto Alegre (RS), há 8 anos na Caixa. A mãe de Marla também foi empregada da Caixa, o namorado, o sogro e as cunhadas também trabalham no banco. “As pessoas estão vendo que os empregados da Caixa estão comprometidos em fazer esse saque dar certo, fazer o dinheiro chegar na mão de quem precisa e quem tem direito da maneira mais rápida possível. É para isso que essa empresa existe e é 100% pública”, garantiu. Para ela, esse é mais um momento histórico pela qual o banco se faz necessário.
A gerente executiva de varejo estava trabalhando em home office, mas resolveu trocar o trabalho pelo atendimento para ajudar os colegas em uma agência que ficou com apenas um empregado, uma vez que os outros estão no grupo de risco. Como em outras agências, no atendimento as maiores dúvidas são a falta de informação e a dificuldade tecnológica. Apesar dos problemas, ainda há muitos momentos felizes. “Ontem, uma senhora que mora na periferia de Porto Alegre começou a chorar e a pular no meio da agência e agradecer a todos quando conseguiu fazer o saque. Ela disse que tinha apenas R$ 20 para passar os próximos dias. Aquilo para mim foi emblemático. Agora ela não vai passar fome e é isso que importa”, lembrou, emocionada.
No retorno para casa, Marla leva ao menos 30 minutos para se higienizar. A limpeza vai desde o celular e do crachá até as roupas que vão direto para a máquina de lavar. A filha de 11 anos teve que ir para a casa da avó. O coração apertou. “Combinamos que ela vai ficar lá enquanto der. A gente se liga toda a noite e ela pergunta se eu estou atendendo todas as pessoas. Ela entende”, confessou.
O trabalho nas extensas filas
A imagem das agências com extensas filas se repete por todo o Brasil. Em São Paulo (SP), não seria diferente. Epicentro da pandemia, a cidade tem mais de 28 mil casos de confirmados de Covid-19 até quinta-feira (30/04). Daniel Stort, assistente de atendimento de varejo, há 7 anos na Caixa, faz o atendimento em uma agência na periferia da cidade. Ele afirmou tem sido gratificante trabalhar em uma empresa que tem uma missão social e não visa apenas o lucro. “Eu acredito que a gente tem esse chamado”, defendeu o empregado que já trabalhou em outras instituições bancárias.
Ainda assim, ele sabe dos desafios que tem para atender a população que sofre com a falta de informação. Stort explica que a dificuldade em entender o auxílio e os aplicativos leva muitas pessoas para as agências e provoca tumultos e aglomerações. “Ultimamente, está muito pesado. Conheço colegas que estão doentes por causa da pressão. Eu estava a ponto de entrar em parafuso, se não houvesse o rodízio”, avaliou o bancário, que nessa semana estava em home office.
Mesmo morando sozinho, a pandemia afastou Stort do convívio com os pais. Principalmente do pai, que segue em tratamento contra o câncer. “Eu fazia questão de todos os dias ir visitá-los. Mas com a atual realidade, eu não estou mais conseguindo vê-los. Ligo todos os dias, mas não é a mesma coisa”, explicou.
Stort lembrou que os empregados da Caixa atenderam a todos os chamados, como aconteceu com o FGTS, sempre com resultados acima do esperado. Agora, os trabalhadores merecem respeito. “O que é mais importante da Caixa são as pessoas. Parece que o tempo todo o governo não está nem aí para o trabalhador. O trabalhador quer sempre cumprir com o chamado, mas o governo não dá subsídio nenhum. É preciso respeito com o trabalhador e com a população”, ressaltou.
Home office também trabalha
Uma das medidas de proteção aos empregados adotada pela Caixa, após forte reivindicação das entidades, foi o home office. Martina Compani Pozzobon é um desses casos. Agora, entre uma reunião e outra, a bancária de Porto Alegre (RS) divide a atenção com o filho de apenas um ano e meio. A rotina começa cedo com as mamadas do pequeno e uma arrumada na casa. “Está sendo desafiador gerir a equipe e conciliar todas as tarefas de casa. O que eu vejo são as equipes trabalhando muito para que tudo dê certo”.
Para Martina, o trabalho em casa tem alguns ganhos. Para quem mora em grandes centros, por exemplo, o trânsito não é mais um problema. “O tipo da jornada da grande maioria mudou. Acordo muito cedo e começo a trabalhar às 7 da manhã, aproveitando que meu filho está dormindo. E vou direto até ele acordar”, contou. A gerente se considera privilegiada por fazer o trabalho remoto, enquanto os colegas seguem no atendimento direto à população. “Temos muito trabalho, mas somos privilegiados porque os colegas que estão na linha de frente estão trabalhando pesado para atender todos que precisam”, disse.
Saúde Mental
A situação mental dos trabalhadores da Caixa tem sido debatida com frequência pela Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae). Agora mais ainda, com a pressão nesse cenário de pandemia.
A professora titular de psicologia da Universidade de Brasília (UnB), Ana Magnólia Mendes, coordenadora técnica do projeto de Saúde Mental da Fenae, afirma que o modelo home office apresenta muito mais responsabilidade para o empregado, que acaba relatando depressão, ansiedade, entre outros sintomas.
Dados consolidados por pesquisa encomendada em fevereiro deste ano pela Fenae apontam que quase 20% dos trabalhadores ativos da Caixa apresentam depressão ou ansiedade. O número de bancários que buscam acompanhamento regular psicológico ou psiquiátrico é de 19,6%.
Para o presidente da Fenae, Jair Pedro Ferreira, o trabalhador da Caixa está dando mais uma vez o exemplo de cidadão comprometido com o país. Desde o início da crise, a Fenae e outras entidades representativas atuam junto à Caixa ao governo para proteger o empregado neste momento de pandemia. “O empregado Caixa tem no seu DNA o compromisso social. Mas ele precisa ser mais valorizado, é para isso que trabalhamos. São muitos desafios diários. E neste momento eles são bem maiores”, afirmou Jair Ferreira.
Fonte: Fenae