Brasil depende dos bancos públicos para se desenvolver com redução de desigualdades

Congresso dos Funcionários do BB refletiu sobre o papel do Estado no crescimento do país: “Desenvolvimento e bancos públicos é uma coisa só, um não vive sem o outro”

Na tarde desta quarta-feira (5), durante a terceira mesa de debates do 34º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil, os economistas Juliane Furno e Gustavo Cavarzan desafiaram o pensamento econômico convencional que sugere que a participação dos bancos públicos prejudica o desenvolvimento do país.

“Todos sabemos da importância dos bancos públicos na sociedade brasileira. Os dados apresentados pelos conferencistas evidenciam essa importância em setores chave, tais como a habitação, agricultura e indústria”, afirmou Juliana Martinelli, funcionária do BB e diretora do nosso sindicato, presente no congresso. Em suas falas, Furno e Cavarzan ressaltaram as desigualdades seriam aprofundadas sem a ação estratégica dessas instituições.

A cientista social, economista e doutora em Desenvolvimento Econômico pela UERJ, Juliane Furno, que também é assessora da diretoria do BNDES, desconstruiu mitos do neoliberalismo que persistem no Brasil. Ela destacou que, apesar da retórica de que o Estado prejudica o mercado, na realidade, é o Estado que fortalece o sistema econômico, garantindo condições para o desenvolvimento e impactando diretamente na vida da população e na soberania nacional.

A economista explicou que mesmo para ter livre mercado é preciso ter Estado, por exemplo, para impedir a formação de cartel, monopólio e coordenação de preços. “Porque a realidade é que a tendência do mercado é esmagar os pequenos e, cada vez mais, concentrá-los em grandes grupos.”

Silvio Rodrigues, funcionário do BB e diretor do nosso sindicato, também presente no encontro, comenta que existe uma disputa de narrativas na sociedade: “O mercado defende a desregulamentação e o Estado mínimo. Nossos bancos públicos estão no meio dessa disputa, por isso é importante termos clareza de que o Estado é fundamental para garantir não apenas regulação do mercado e o enfrentamento das desigualdades, como a própria soberania do país”.

“Entre as críticas frequentemente apresentadas pelo viés do pensamento econômico convencional está a de que a participação dos bancos públicos atrapalha o cumprimento da meta de inflação, a ‘eficiência’ na alocação de recursos e harmonia entre as políticas monetária e fiscal. E que somente o livre mercado é capaz de garantir a alocação eficiente de recursos. Mas não é o que ocorre na prática”, explicou Cavarzan, que também atua na subseção do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) na Contraf-CUT. Ao contrário dos bancos públicos, “os bancos privados tendem a concentrar suas operações de crédito nas regiões mais dinâmicas, porque priorizam retornos rápidos e menos arriscados”, completou o economista.

Em 2022, a participação dos bancos públicos no saldo de crédito imobiliário e no saldo de crédito rural total foi de 74,2% e 75,8%, respectivamente. “A pouca participação dos bancos privados não se dá porque existe uma tradição da atuação dos bancos públicos, mas sim, porque são áreas que necessitam de muitos recursos e de extenso período para concretização, especialmente no caso habitacional, ou que estão sujeitas a mudanças climáticas e que podem afetar a safra e gerar oscilações de preços, especificamente no caso da agricultura. Todos esses são elementos que fazem com que os bancos privados evitem financiar esses setores e, por isso, possuem baixa participação”, disse Cavarzan.

Além do financiamento ao desenvolvimento econômico, outras três esferas importantes de atuação dos bancos públicos são no desenvolvimento regional, controle da concorrência e na atuação anticíclica na oferta de crédito, em outras palavras, para minimizar os efeitos dos ciclos econômicos, em momentos de crise.

Em relação ao desenvolvimento regional, dados apresentados na mesa de debates mostram que, em 2022, os bancos públicos foram responsáveis por 90,4% das operações de crédito na região Norte, 87,8% nas da região Nordeste e 85,7% da região Centro-Oeste. Nas regiões com maior concentração econômica – Sul e Sudeste – a participação dos bancos públicos nas operações de crédito foi 77,7% e 26,2% respectivamente. Nas cidades do interior, os bancos públicos repetem a mesma importância, com 66,5% das concessões de crédito registradas em 2022.

De acordo com os economistas, a atuação dos bancos públicos deve estar atrelada à política econômica:

  • No combate ao desemprego e pela geração de renda para a população, quando impulsiona o setor habitacional;
  • Na consolidação de planos de urbanização democráticos e inclusivos, quando financia infraestrutura de saneamento e transporte;
  • Na geração de empregos qualificados e bem remunerados, quando no financiamento do setor industrial, sobretudo com o objetivo de promover o desenvolvimento de setores intensivos em tecnologia e inovação e que reduzam a dependência econômica do Brasil em relação aos outros países;
  • No combate à fome, quando impulsiona o setor agrícola, mas sem deixar de considerar a redução da desigualdade fundiária e a questão ambiental.

Matéria completa no site da Contraf-CUT

Compartilhe!

Seu Banco

Seu Sindicato