”É o momento em que a ciência está aparecendo muito, mas quantas não estão em casa tentando sobreviver, em vez de estarem falando de suas pesquisas?”, diz titular da academias Brasileira e Mundial de Ciências

As pesquisadoras da USP, Ester Sabino e Jaqueline Goes, sequenciaram o genoma do coronavírus em menos de 48 horas
Segundo dados do Open Box da Ciência, divulgados em fevereiro, os títulos de doutorado na plataforma Lattes no Brasil pertencem, majoritariamente, a homens. Eles representam 59,7% do total, enquanto as mulheres equivalem a 40,3%.
Apesar disso, nas ciências da saúde elas são maioria: 57% do total de 28.612 pesquisadores contabilizados.
Logo que o novo coronavírus chegou ao Brasil, as mulheres cientistas já marcaram presença. O primeiro caso no país foi confirmado em 26 de fevereiro. Menos de 48 horas depois, uma equipe coordenada e composta em maioria por mulheres publicava o sequenciamento do vírus.
A pandemia de coronavírus no Brasil tem afetado fortemente a produção científica de quem depende de estrutura e recursos públicos para pesquisar, mas, no caso das mulheres, o impacto foi brutal. Se já era desigual antes, só piorou com o combo home office, aula à distância, escolas fechadas e isolamento social. Muitas mulheres precisam dar conta não só do trabalho, dos filhos, das refeições, da limpeza da casa, da educação das crianças e das angústias provocadas pela falta de apoio, respiro ou espaço, como também, não raro, de idosos ou doentes.
Levantamento do projeto brasileiro Parent in Science [do inglês, pais na ciência] tenta calcular o dano da pandemia e da desigualdade de condições para docentes, pesquisadores e alunos de pós-doutorado, doutorado e mestrado. Até o momento, 2.000 acadêmicos já responderam o questionário —70%, mulheres. Os resultados são preliminares, mas já revelam um cenário alarmante.
40% das mulheres sem filhos não concluíram seus artigos, contra 20% dos homens.
52% das mulheres com filhos não concluíram seus artigos, contra 38% de homens.
Licença-maternidade e pandemia descrita no Lattes Outra ação, que surgiu após simpósio sobre maternidade com entidades ligadas à ciência no Brasil e deve ser reforçada agora, é brigar para que as informações sobre licenças-maternidade e/ou paternidade apareçam na plataforma Lattes, que mostra o currículo dos pesquisadores e professores atuando no Brasil.
É o momento em que a ciência está aparecendo muito, mas quantas não estão em casa tentando sobreviver, em vez de estarem falando de suas pesquisas? É perverso, porque, tendo menos visibilidade, elas ficam mais sujeitas a não terem projeção do profissional. A pandemia está sendo um momento particularmente crítico à mãe pesquisadora: é como se ela estivesse sendo penalizada por sua condição”
Marcia Cristina Bernardes Barbosa, titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Mundial de Ciências
“Garantam acesso è educação para as meninas’’, apela secretário-geral da ONU
É notória a importância das mulheres no combate à pandemia de covid-19, já que elas representam 70% de todos os profissionais de saúde e têm demonstrado papel fundamental nas pesquisas, desde o avanço do conhecimento sobre o vírus até o desenvolvimento de técnicas de teste e, finalmente, da vacina. Além disso, elas foram as mais afetadas pela pandemia na medida em que carregam o peso do fechamento das escolas e da adoção do teletrabalho.
‘’Sem mais mulheres nas ciências,o mundo continuará a ser projetado por e para homens, e o potencial de meninas e mulheres permanecerá inexplorado”, afirma o secretário-geral da ONU, António Guterres.
Ele apela à comunidade internacional que garanta às meninas acesso à educação porque merecem e podem ter um grande futuro em áreas como engenharia, programação de computadores, tecnologia em nuvem, robótica e ciências da saúde.
Mulheres ocupam 71% dos cargos de Pesquisa no Butantan

Em 2020, o Instituto Butantan, um dos maiores centros de pesquisa e produção de imunobiológicos do país, fez um mapeamento inédito sobre a presença feminina na área da pesquisa na instituição. Hoje, o Butantan tem 71% de seu corpo científico formado por mulheres. Do total de pesquisadores contratados, apenas 29% são homens.
A explicação para a predominância feminina se encontra em diversos fatores, dentre eles o acesso crescente de mulheres à educação superior nas últimas décadas e também devido às áreas de estudos que predominam no IB, em sua maioria das Ciências Biológicas e da Saúde, que costumam tradicionalmente atrair maior contingente feminino.
Sobre o perfil das pesquisadoras do IB, destaca-se o alto número de profissionais em nível 6, que é o nível mais alto da carreira científica. Das 99 especialistas, 43 estão neste nível.
“Elas são pessoas extremamente estratégicas para estudos que demandam um conhecimento multidisciplinar em projetos com diferentes linhas de frente. Elas conseguem harmonizar, construir e discutir os temas com competência. Acho que essa é uma característica muito forte das pesquisadoras do Butantan”.
Sandra Sampaio, diretora do Centro de Desenvolvimento Científico do IB
fontes: Uol/Butantan/Universa
