Qual instituição privada se disporia a atender, sem nenhum retorno financeiro, a população de baixa renda, e que agora se vê sem renda?
Nesses tempos de pandemia, muito se tem falado com justiça do trabalho heroico das equipes de saúde dos hospitais públicos e privados, na linha de frente do combate à covid 19. Certamente são eles os grandes protagonistas dessa conjuntura insólita ao realizar seu trabalho abnegado, sacrificando suas vidas pessoais e o convívio com seus familiares, para se dedicar a salvar vidas de outras pessoas, sejam elas quem forem.
Lamentavelmente muitos estão sendo afastados do trabalho por terem se contaminado, inclusive com registro de várias mortes. O mais revoltante é saber que, não fosse a incompetência e irresponsabilidade de muitas autoridades, começando pela que ocupa a cadeira de presidente da república, o trabalho desses profissionais poderia ser menos penoso e insalubre, com resultados mais positivos e teríamos menos ocorrências trágicas.
Mas precisamos olhar também para outros segmentos de trabalhadores que realizam serviços considerados essenciais com grande alcance social e que também não dispõem de proteção adequada, como coletores de lixo, entregadores de alimentos, motoristas de ônibus etc. Entre esses não há como não citar os bancários, em especial os da Caixa.
As TVs e a mídia em geral, Rede Globo encabeçando, têm monitorado a situação crítica de muitas agências da Caixa, principalmente após o início do pagamento dos seiscentos reais para a parcela da população com perda de renda. O que não deixa de ser um efetivo serviço de utilidade pública, pois denuncia a falta de estrutura de atendimento e o risco representado pelas multidões aglomeradas nas portas das unidades.
O problema é que, de maneira bastante superficial e leviana, as reportagens dão a entender que a culpa do mal atendimento e da falta de informações mais precisas é dos empregados. Em nenhum momento é mencionado o processo de sucateamento porque passou o banco nos últimos anos, com os objetivos nada nobres de desgastar a imagem e reduzir suas despesas para facilitar a privatização, ou mesmo extinção, até porque os pretensos “especialistas” dos jornais e telejornais reverberam as opiniões dos donos das empresas de comunicação que apoiam incondicionalmente a política neoliberal de desmonte do Estado.
Não se fala também que o apoio logístico vindo da administração central da empresa é absolutamente insuficiente, haja vista a falta de equipamentos básicos de proteção como máscaras e álcool gel, obrigando os próprios empregados a trazer esses itens de suas casas.
Colegas do Brasil inteiro têm reportado a verdadeiro caos que tem sido o atendimento à população que se dirige angustiada às agências na esperança de conseguir ter acesso a esses recursos para conseguir comprar alimentos e garantir a própria sobrevivência e de seus familiares. O que piora sensivelmente a situação que anteriormente já se apresentava muito distante da ideal.
Evidentemente a responsabilidade também não pode ser colocada sobre a população carente que, em meio a divulgações contraditórias e insuficientes, procuram as unidades de atendimento da Caixa na esperança de fazer valer seu direito. Nessa busca frenética, muitas vezes os ânimos se exacerbam e, os empregados que já trabalham em condições precárias, sem a devida proteção e com o justificável receio de se contaminar, ainda correm o risco de serem agredidos pelos usuários dos serviços.
Analisando outro aspecto da questão, mais uma vez, a Caixa em momento de crise demonstra não só sua importância como agente público de promoção de políticas sociais, como também é mais uma prova do quão falacioso é o discurso do Estado mínimo. Mesmo com todo o enxugamento que sofreu nos últimos anos, com redução de pessoal que beira os 20% do quadro existente em 2014, é de se perguntar, qual instituição privada se disporia a atender, sem nenhum retorno financeiro, a população de baixa renda, e que agora se vê sem renda?
Mas, ao mesmo tempo, fica claro que nada seria possível se os empregados não tivessem senso de profissionalismo e a consciência de que fazem parte de uma empresa que tem como papel fundamental o atendimento à população, em especial a mais carente.
Nada mais justo do que estender as homenagens aos médicos, enfermeiros e demais trabalhadores da saúde a todos que têm desempenhado de maneira altruística suas funções, como os bancários da Caixa, exercendo na prática, para além de sua obrigação de ofício, o verdadeiro sentido da palavra solidariedade. Mas, como diz Gregório Duvivier, eles também merecem #MaisDoQuePalmas.
Fonte: Observatório do Participante