De braços cruzados por mais de um mês, governo federal parece preocupado apenas em apontar os responsáveis pelo vazamento. Após voluntários retirarem toneladas de óleo no braço, só hoje militares começam a ajudar na limpeza.
Do dia para a noite, uma borra densa, grossa e preta tomou a Praia do Forte, localizada na cidade de Mata de São João, no litoral norte baiano. “Parece uma massa daquelas de fazer pão, mas enorme, pesada. O cheiro era bem forte, principalmente em contato com o calor”, relata o argentino Javier Rozas, de 33 anos, dono de um restaurante local. O óleo chegou por lá em 11 de outubro, mas avança pelo mar nordestino desde o dia 30 de agosto.
De acordo com o Ibama, a mancha atingiu 166 localidades em todos os estados do Nordeste. Mais de 198,5 toneladas de resíduos foram recolhidas, um desastre ambiental de grandes proporções. Apesar da gravidade da situação, o episódio demorou a ser levado a sério. De braços cruzados por mais de um mês, o governo federal parece preocupado apenas em apontar os responsáveis pelo vazamento de óleo, mas a lista de culpados só aumenta, e o quebra-cabeça segue sem solução.
As manchas atingiram diversos estados ao mesmo tempo, e foram notadas primeiramente nas praias de Pernambuco, Paraíba e Sergipe. Ao se aproximar da costa baiana, pesquisadores do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia, em parceria com a Universidade Federal de Sergipe, recolheram amostras das manchas de óleo em 4 de outubro. A pesquisadora Olívia Cordeiro, da UFBA, explica que os testes permitem identificar se o óleo é de origem brasileira.
“Essas amostras carregam uma espécie de ‘impressão digital’, biomarcadores e isótopos estáveis. Cada óleo é produzido em uma bacia petrolífera que teve condições ambientais diferenciadas na época de formação”, explica. Com o resultado de que o óleo teria grandes chances de ser de origem venezuelana, a universidade logo foi procurada pela Petrobras, que também realizou os testes e reafirmou a análise da UFBA. Além disso, também concluíram que as manchas eram de petróleo cru, ou seja, um composto sem qualquer tipo de refinamento.
Uma força-tarefa foi formada para buscar respostas. A investigação da origem das manchas está sob a responsabilidade da Marinha e da Polícia Federal, que apuram a possibilidade de um crime ambiental. O Ibama e o ICMBio analisam os impactos ambientais do vazamento, enquanto a Petrobras atua regionalmente, contratando funcionários terceirizados para fazer a limpeza das praias.

Pelo aspecto das borras, Cordeiro diz que as manchas devem estar na superfície do mar há mais de dois meses. A Marinha notificou 30 navios-tanque de dez diferentes nacionalidades que tiveram percurso confirmado na região, mas ainda não existe nada conclusivo, nem mesmo por imagens de satélite. Por suas características físicas, o óleo pode ser encoberto por uma fina camada de água do mar, o que impossibilita a identificação das manchas ao se observar de cima, explica a pesquisadora. Por esse motivo, ao fazerem uma varredura a pedido do governo brasileiro, satélites americanos também não foram capazes de identificar a origem das manchas no oceano.
Sem respostas conclusivas, começaram a surgir outras hipóteses. No fim de setembro, a Administração Estadual do Meio Ambiente de Sergipe avistou barris de óleo na praia Barra dos Coqueiros, litoral norte do estado, identificados como lubrificantes da empresa holandesa Shell. Pesquisadores da Universidade Federal de Sergipe atestaram que o conteúdo do barril era o mesmo das borras. A empresa nega a correlação. “Isso aponta para uma possível reutilização da embalagem em questão”, disse a Shell em nota.
Os outros especulam sobre a possibilidade de a lambança ser obra de um “petroleiro fantasma”, um navio de transporte ilegal da commodity. Essa seria uma forma de driblar o embargo econômico dos EUA à Venezuela, dona de uma das maiores reservas de petróleo do mundo. William Nozaki, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, conhecido pela sigla Ineep, explica que as sanções impulsionam a atuação de navios que desligam os transmissores para não serem identificados por satélites.
Mais de 198,5 toneladas de resíduos foram removidas da costa nordestina
“O embargo dos EUA sobre o Irã e a Venezuela encareceu o valor do frete nos mares desses países. Esse aumento de custo logístico tem provocado o crescimento do número de navios-tanque trafegando em alto-mar sem rastreamento”, diz Nozaki. Além disso, o sucateamento dos portos venezuelanos fez com que a estatal PDVSA passasse a abastecer seus navios em alto-mar, o que também aumenta as chances de vazamento de óleo.
A PDVSA negou, em 10 de outubro, que o petróleo na costa brasileira tenha sido proveniente de seus portos. Ricardo Salles rebateu e disse que a resposta do governo venezuelano era “descabida”, já que ele nunca afirmou que o óleo tinha vindo diretamente dos poços do vizinho sul-americano. Mesmo assim, o ministro correu para as redes sociais para alimentar teorias conspiratórias. “Óleo venezuelano, em barril de lubrificante reutilizado […] Deve ter caroço nesse angu aí”, escreveu.
Apesar do tom provocativo, o ministro do Meio Ambiente não deveria estar tão confiante. Deputados querem convocá-lo para prestar esclarecimentos na Câmara. “É época de reprodução das tartarugas marinhas, do peixe-boi marinho, nós temos a chegada de aves migratórias para o Brasil. É uma situação superdelicada. A gente sente que o governo demorou demais para agir”, afirma Rodrigo Agostinho, do PSB-SP, um dos autores do pedido. De fato, Salles só visitou uma das praias atingidas em 7 de outubro, mais de um mês após o aparecimento das primeiras manchas.
Com esse mesmo entendimento, deputados do PT solicitaram ao procurador-geral da República, Augusto Aras, a abertura de um inquérito para apurar as más condutas administrativas do ministro. De acordo com o Plano Nacional de Contingência, assinado pela ex-presidente Dilma Rousseff em 2013, o governo poderia ter convocado grupos de acompanhamento e avaliação e comitês de suporte para agilizar o trabalho emergencial.
Os deputados sustentam que o ministro cometeu crime ambiental por “deixar de adotar medidas de precaução em caso de risco de dano ambiental irreversível”, além de incorrer em infração administrativa por violar as regras jurídicas na promoção e preservação do meio ambiente. Ambas as acusações, se comprovadas, poderiam custar a Salles o cargo de ministro.
Não se descarta a possibilidade de um “petroleiro fantasma” ser o responsável pela lambança
De acordo com o relatório de áreas atingidas apresentado pelo Ibama, 72 municípios em todos os estados da Região Nordeste haviam sido afetados até 14 de outubro. A maioria dos locais possui vestígios esparsos, mas 15 deles ainda contêm as manchas pretas mais densas.
Na fauna, as tartarugas marinhas foram as mais impactadas. Ainda segundo o Ibama, 13 tartarugas foram encontradas mortas e 10 estavam com vestígios de óleo na carapaça. A veterinária Thais Pires, que atua no Projeto Tamar, na Praia do Forte, afirma que a maior preocupação é com os filhotes dos animais. “O óleo faz uma barreira física que não permite que o filhote alcance o mar. Ele tem 4 centímetros de carapaça e apenas 20 gramas. Nas áreas mais impactadas, a gente retira esses filhotes para soltar em locais mais limpos ou, em algumas situações, também fizemos solturas em alto-mar”, diz.
Bahia e Sergipe declararam situação de emergência por conta da persistência do óleo em suas áreas litorâneas. Ambos os governos pediram auxílio financeiro do governo federal para alocar recursos nas cidades mais afetadas. Em nota, o governo da Bahia afirmou que “as praias estão sendo limpas rapidamente à medida que os órgãos identificam as áreas com pontos de manchas de óleo. Não há, no momento, expectativa de redução do fluxo de turistas”.

Para a pesquisadora Olívia Cordeiro, da UFBA, as ações devem ser centradas na limpeza diária das regiões, uma vez que o tamanho do vazamento original e suas proporções de alcance permanecem desconhecidos. “Depende das correntes marítimas, da temperatura dessas correntes e do vento que fica na superfície dessa lâmina d’água.”
“Temos poucas informações sobre as repercussões futuras na vida das tartarugas. No momento, a gente tem lidado com a iminência de impactos já nesse ciclo reprodutivo”, acrescenta Thais Pires, do Projeto Tamar.
O cenário, no entanto, demonstra um pouco mais sobre a realidade dos aparelhos ambientais no Brasil. Para William Nozaki, estamos diante de uma tragédia anunciada, em razão do desaparelhamento dos órgãos de fiscalização. “O desmonte das políticas ambientais e de defesa coloca em risco nosso meio ambiente e nossos recursos naturais estratégicos.”
Só agora
Militares do Exército começaram a atuar, nesta terça-feira (22), na limpeza de praias do litoral pernambucano atingidas por óleo, entre elas a de Itapuama, no Cabo de Santo Agostinho, onde voluntários escreveram pedido de socorro e de luvas e trator para fazer a limpeza. O reforço foi anunciado pelo vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), na segunda (21).
Essa é a primeira vez que o Exército atua na limpeza. Além de Itapuama, os militares atuam também na limpeza das outras duas praias atingidas na cidade. Desde a quinta (17), os voluntários atuam na remoção do material da água, da areia e dos mangues.
Além de Itapuama, o óleo chegou às praias de Enseada dos Corais e da Reserva do Paiva, próximo ao limite com Jaboatão dos Guararapes, na segunda (21). Voluntários fizeram um apelo, escrevendo pedido de socorro na areia.
fontes: Carta Capital e G1
Povo tira óleo das praias enquanto Bolsonaro e Salles se omitem
Mais do que cartão postal, praias contribuem para a economia dos estados e para a renda de famílias de nordestinos que Bolsonaro já chamou de “paraíbas”
“Assim como água e óleo não se misturam, o povo nordestino não se liga ao fascismo da nova ordem bolsonarista. Essa brava gente limpa as praias e supre a ausência total de governo”, escreveu o jornalista e escritor cearense Xico Sá em seu perfil no Twitter.
É o povo que em sua maioria não votou em Jair Bolsonaro (PSL) e por ele foi chamado pejorativamente de “paraíbas” que agora usa pá, enxadas e até as próprias mãos para retirar o óleo misturado à areia das praias que são mais do que cartões postais turísticos, mas fontes de renda para muitas famílias e para a economia desses estados. Fora o dano ambiental incalculável, com a contaminação da água e a consequente mortandade da fauna e flora marinha.
Enquanto isso, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, vai empurrando com a barriga até que o maior desastre ambiental do litoral brasileiro, que tomou as manchetes das queimadas em toda a região Amazônica e no Cerrado, estimuladas pelo próprio discurso do governo, seja ofuscado por uma outra tragédia que muito provavelmente será igualmente tratada com descaso.
Ontem, também por meio de sua conta no Twitter, o governador da Bahia Rui Costa (PT) fez cobranças ao governo. “De helicóptero realmente não tinha como ver. Fazer foto e dizer que trabalhou é muito fácil. Deixe de fazer política e trabalhe. O senhor já sabe o q causou esse gravíssimo acidente ambiental? Além de nada, o que o senhor fez? Não quero acreditar em preconceito contra o Nordeste.”
Rui respondeu a um post do ministro, deste sábado (19), em que afirma ter estado “pessoalmente na Bahia anteontem (17)” , que percorreu “de Salvador a Praia do Forte. Eu vi centenas de fuzileiros navais, agentes do IBAMA, equipes municipais, mas não vi ninguém do Governo Estadual”. Um dia antes, Salles sobrevoou o litoral baiano.
Segundo o governador, até o dia 17 já haviam sido removidos mais de 155 toneladas deste material. “Entretanto precisamos de um posicionamento e de resoluções do Governo Federal, através da Marinha e do IBAMA, que são os responsáveis pelo cuidado com o oceano, mas continuam em silêncio.”
Nesse mesmo dia, o Ministério Público Federal entrou com ação contra o governo federal por omissão do governo Bolsonaro diante do maior desastre ambiental no litoral brasileiro e pediu que a Justiça obrigue o governo restabeleça o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água (PNC), instituído em 2013, no governo da presidenta Dilma Rousseff (PT). Plano que, para funcionar, depende pessoal e de articulação por meio de conselhos que foram extintos pelo governo.

Fonte: Rede Brasil Atual
Foto capa: Leo Domingos