Isso é resultado da corrosão da esperança e da confiança na economia, na política, no governo e nas instituições.

*artigo de Leonardo Sakamoto para Uol

O aumento no contingente de trabalhadores que desistiram de procurar emprego
porque acreditam que não vão encontrar algo é um dos piores indicadores para um
país. Isso vai além de desemprego, é o resultado da corrosão da esperança e da
confiança na economia, na política, no governo e nas instituições. E a depender do
nível dessa corrosão, a reconstrução não apenas é lenta, mas pode minar a já frágil
e desorientada democracia.

De acordo com a Pesquisa por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua, divulgada,
nesta quinta (16), procurar emprego no segundo trimestre deste ano por desalento.
Estão fora da força de trabalho por não acreditar que exista oportunidade ou espaço
para no mercado, não contar com experiência ou qualificação, ser considerado
muito jovem ou muito idoso, não encontrar serviço no local de residência ou não ter
conseguido trabalho adequado. O valor é maior que os 4,6 milhões do primeiro
trimestre deste ano e dos 4 milhões do último trimestre do ano passado.

A porcentagem da população em desalento, que vinha caindo paulatinamente
desde o início da série histórica, em 2012, chegou a 1,5% da população, no
segundo trimestre de 2014. Desde então, com a crise deflagrada no governo Dilma
Rousseff, inverteu a tendência e passou a subir, atingindo 4,4% da população no
segundo trimestre deste ano.

Alagoas (16,6%), Maranhão (16,2%), Paraíba (11,1%), Bahia (11%) e Piauí (10,9%)
contam com os maiores percentuais. A região Nordeste figura como primeiro lugar,
com média de 10,5%, seguida das regiões Norte (6,1%), Centro-Oeste (2,3%),
Sudeste (2,1%) e Sul (1,2%). Na parte de baixo da tabela, estão Santa Catarina
(0,7%) e um Rio de Janeiro (1,2%) – Estado que, aliás, se encontra em duras crises
política e econômica.

Os desempregados somados às pessoas que gostariam de trabalhar mais e os que
desistiram de procurar emprego chegam a 24,6% – o que representa uma força de
trabalho de 27,6 milhões. No primeiro trimestre deste ano, a porcentagem era de
24,7% (27,7 milhões). Mas, no segundo trimestre de 2017, a taxa era de 23,8%. Ou
seja, a subutilização da força de trabalho cresceu no prazo de um ano.

Para quem olha apenas para as taxas de desocupação (mesmo desconsiderando
que, no primeiro trimestre, houve um repique do desemprego a 13,1%), vai achar
que tudo está melhorando porque houve queda de 13% (segundo trimestre de
2017) para 12,4% (segundo trimestre deste ano). Combinando desemprego com
subutilização, contudo, verifica-se que a situação é mais complicada do que pinta o
governo federal.

O desalento da falta de emprego está relacionado ao desalento da política.

A manutenção forçada de um governo cuja legitimidade, honestidade e
competência são questionadas seria suficiente para levar o país às ruas. Mas não
foi. Como já disse aqui, a sensação é de que boa parte da população – aturdida
com o desemprego arrasador e com as quase 64 mil mortes violentas, somado às
denúncias de corrupção que seguem galopantes e a promessas vazias de parte das
elites política e econômica, de que correria leite e mel após o impeachment e a
Reforma Trabalhista – está deixando de acreditar na coletividade e buscando
construir sua vida tirando o Estado da equação.

Cada um por si e o sobrenatural por todos. O problema é que isso deixa o Estado
livre para continuar servindo aos interesses de poucos.

Caídas em descrença, instituições levam décadas para se reerguer – quando
conseguem. No meio desse vácuo, surge a oportunidade para seres que se
consideram acima das leis se apresentarem como a saída para os nossos
problemas, mesmo que empacotem de uma forma diferente a mesma retirada de
direitos trabalhistas pregada pelos que estão no poder. Sim, o desalento
continuado em uma democracia pode ser o ponto final dela própria.

fonte: Blog do Sakamoto

foto: Gabriel Paiva (fila de emprego no Rio)

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