Inteligência artificial é mais uma ferramenta de controle de produtividade e exploração dos trabalhadores
Os delegados do 39º Congresso dos Empregados da Caixa Econômica Federal refletiram, na segunda mesa de debates desta quarta-feira (5), sobre “Os impactos da inteligência artificial no mundo do trabalho”.
Os convidados para contribuir com o debate foram a economista Vivian Machado, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), e o pesquisador e doutor em Microbiologia, Átila Iamarino.
De acordo com Paulo Mendonça, empregado da Caixa e diretor do nosso sindicato, presente no encontro, embora ainda não seja possível afirmar categoricamente que as IAs já estejam substituindo o trabalho dos bancários e bancárias, é preciso estar sempre atento: “No caso da Caixa, a redução de empregos por conta da tecnologia só não foi maior devido à resistência dos movimentos sindicais e de valorização do banco público”.
Em sua apresentação, Vivian relacionou a inteligência artificial (IA) no atual contexto tecnológico, com o sistema financeiro e o mercado de trabalho. Ela explicou que as tecnologias de IA são classificadas por sua capacidade de imitar características humanas como inteligência artificial estreita; geral e superinteligência artificial.
Por isso, segundo a economista, já está havendo normas de regulamentação do uso da IA, como já existe na União Europeia. A economista disse que as regras europeias determinam que as regras de uso geral serão aplicáveis um ano após a entrada em vigor (maio de 2025) e as obrigações para sistemas de alto risco, em três anos. A supervisão é de responsabilidade das agências nacionais dos Estados-membros, apoiadas pelo “Gabinete de IA” da Comissão Europeia.
Átila Iamarino explicou que ainda que as IAs disponíveis no mercado atualmente não tenham capacidade de substituir o trabalho humano essas tecnologias já estão sendo aplicadas em ambientes corporativos para monitorar a produtividade e as dinâmicas laborais, sendo vendidas como formas de aumentar os lucros para os acionistas, explorando ainda mais o trabalho.
O pesquisador explicou que a recente explosão de IAs se deve a sistemas de programação que agregam contexto e valores às palavras, permitindo criar textos, áudios e imagens. “No entanto, essas IAs não possuem verdadeira inteligência ou capacidade de raciocínio humano. São geradores de conteúdo que buscam construí-lo da forma mais racional possível, mas têm muitas falhas, geralmente decorrentes de problemas na comunicação humana ou nos dados fornecidos”, disse.
Por isso, alertou que utilizar essas ferramentas para serviços humanos complexos sem supervisão é irresponsável, pois podem gerar informações erradas ou inventadas, afetando negativamente os mais vulneráveis. “Embora as IAs possam construir textos com lógica, a capacidade de raciocinar e corrigir informações de contexto ainda é exclusivamente humana”.
IA nos bancos
Dados da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) apontam que 96% dos bancos utilizam tecnologias de inteligência artificial e 54% utilizam genIA, que é a inteligência artificial generativa, usada para criar textos, imagens, músicas, áudios e vídeos. E esta utilização cresce a ritmos assustadores no Brasil.
Impactos no emprego bancário
Em 1990, a categoria bancária era responsável por 95,2% dos empregados no ramo financeiro. Em 2021 esse percentual caiu para 43,6%.
Todo esse uso de tecnologia e da inteligência artificial pode estar relacionado com a redução de postos de trabalho no setor bancário. “Não temos como afirmar que há esta relação, até porque existem outros pontos que interferem no emprego bancário, mas acreditamos sim nesta relação”, disse Vivian, ao se referir ao crescimento das cooperativas de crédito, securitários, fintechs e outros segmentos. “Em muitos casos, esses trabalhadores são precarizados pela terceirização, não têm vínculo empregatício com as empresas que os contratam, são ‘personal bankers’”, lamentou a economista do Dieese.
Na Caixa, especificamente, a redução do quadro de pessoal não foi maior devido à resistência do movimento sindical, que impediu a demissão imotivada e exigiu o cumprimento da exigência mínima de 5% de empregados com deficiência, o que obrigou a Caixa a fazer um concurso específico para PcD e a contratar candidatos aprovados no concurso de 2014, após ter conseguido a prorrogação da validade do concurso.
Mesmo assim, o quadro de pessoal, que chegou a ter 100.677 empregados em 2014, caiu para 81.945 em 2020, com leve recuperação a partir de 2021, em decorrência da pressão dos sindicatos por mais contratações.
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