“Pibão” não representa pressão inflacionária, diz economista

São Paulo – Apesar de favorecido por um 2009 ruim, o crescimento econômico de 9% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre do ano foi festejado por empresários, pelo governo e até pela oposição. Mas motiva divergências entre economistas. O resultado foi divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira (8), véspera do anúncio da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa básica de juros da economia, a Selic.

Enquanto os diretores do Banco Central devem ecoar as previsões do mercado e decretar o segundo aumento concecutivo de 0,75 ponto percentual, críticos do modelo de política monetária do país questionam o regime adotado. Para Salvador Werneck Viana, técnico da Diretoria de Estudos Macroeconômicos (Dimac) do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), as pressões inflacionárias apontadas pela autoridade monetária estão já acomodadas e têm muito mais relação com resquícios de indexação da economia do que com questões relacionadas à demanda.

O fato de o primeiro trimestre de 2009 ter sido um momento de forte retração econômica do país e de o último trimestre daquele ano ainda representar um período de recuperação explica o motivo de taxas tão elevadas, mais do que por superaquecimento. “Discordo de que haja pressões inflacionárias prementes”, vaticina Werneck. “Algumas tarifas públicas, como transporte público, e outras, como mensalidades escolares, sofrem reajustes anuais superiores à inflação”, lamenta. Exemplos foram reajustes de tarifas em capitais como o Rio de Janeiro – onde houve aumento de até 7,5% em rotas intermunicipais – e São Paulo – 17%.

Além dessa indexação remanescente, o economista aponta fatores como safra agrícola, que ganharam importância em função do crescimento da procura por etanol nos postos de combustível. Esses dois aspectos têm peso importante sobre índices de inflação. “É uma preocupação muito grande com um fenômeno localizado e que se desarma com o tempo”, critica.

Diversos economistas ligados ao mercado financeiro e a linhas de análise liberais defendem que o ritmo de crescimento caminha para o superaquecimento com consequências prejudiciais à inflação. O professor de economia e finanças da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (Ebape/FGV), Rogério Sobreira, em entrevista à Agência Brasil, corrobora a análise do mercado.

“A gente não tem como manter esse ritmo de crescimento sem impactar preços. Não dá”. Para o economista, o país não vai conseguir manter este ritmo de crescimento nos próximos meses. É preciso, segundo ele, aumentar o nível de investimentos na economia para que se consiga ampliar a capacidade de crescimento sem pressões inflacionárias.

Pibão

Guido Mantega, ministro da Fazenda, em nota, tratou de alertar que, a despeito do recorde do PIB, já há mostras de resfriamento em abril e maio. Com o fim das ações de incentivo fiscal – com isenção de Imposto sobre Produtos Industrializados, por exemplo – a indústria já apresenta ritmo inferior.

O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, comemorou o crescimento da economia. “Foi um Pibão! A economia já estava pronta para crescer e o resultado é fruto das políticas de governo”, disse, em nota. O único risco apontado pelo ministro é o de abalo externo, já que a crise no mercado internacional ainda não acabou. “Mas temos a confiança dos agentes econômicos. O retorno dos investimentos está muito forte”, disse Bernardo.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva considera que se trata de “um momento de ouro” para o país. “É um crescimento exuberante. Acho que o Brasil merecia e precisava disso”, disse Lula ao discursar em Fortaleza (CE).

O presidente lembrou das críticas que recebeu quando se referiu à crise econômica global do final de 2008 como uma “marolinha”. “Vocês viram que eu fui esculhambado quando eu disse que a crise seria só uma 'marolinha' aqui no Brasil e alguns diziam que o Brasil ia afundar. O Brasil foi o último a entrar na crise e foi o primeiro a sair”, regozijou-se.

Serra de carona

O pré-candidato à Presidência da República José Serra (PSDB) tentou minimizar o resultado do PIB. Ele lembrou que a base de comparação favoreceu a alta no primeiro trimestre. “No ano passado, a economia ficou parada e declinou, mas é bom que o PIB esteja crescendo. Evidentemente, a base de comparação no ano passado favorece”, disse Serra a jornalistas ao deixar um encontro com especialistas em tratamento de drogados.

“É bom que tenha tido essa recuperação. Eu estou feliz”, completou.  O tucano preferiu criticar o desequilíbrio das contas externas provocado pela aceleração das importações e pelo comportamento moderado das exportações.

Santa Sé

Serra não voltou a comentar sobre a ação do Banco Central. Em maio, ele declarou que o Banco Central não é a “Santa Sé”, defendendo que é possível criticar a ação da autoridade monetária. Apesar de não esclarecer que tipo de conduta adotaria em um eventual governo, Serra mantém um padrão de críticas frequentes à política de juros.

Werneck endossa a ideia de que a política monetária não se mantenha acima das críticas. Ele aponta dogmas como entraves para mudanças, como a ideia defendida até poucos anos de que haveria um “PIB potencial”, com crescimento máximo de 3,5% ao ano, e de que a Selic a 8,75% seria o nível de “equilíbrio”. O economista considera que essas concepções carecem de comprovação e mostram-se pouco embasadas na realidade.

Ele não considera que haja pressão de demanda – quando o aquecimento da economia favorece a alta de preços – e lamenta a ação exagerada do Banco Central. “Nos últimos anos, no Brasil, não pagamos para ver, porque sempre que há crescimento mais acelerado o BC 'corrige' essa trajetória”, sustenta. “Surpreende que, nesse modelo, haja um crescimento nessa velocidade”, ironiza Werneck.

O economista defende mudanças na política macroeconômica, que deveria levar em conta questões relacionadas à indústria, para favorecer um parque produtivo menos relacionado a commodities – produtos de baixo valor agregado. Isso passa por evitar sobrevalorização do real e não desconsiderar o papel dos investimentos do Estado no crescimento econômico.

“A política monetária domina as outras instâncias em um arranjo pouco virtuoso do ponto de vista do crescimento”, diagnostica. “A política fiscal não pode ser uma correia de transmissão como ocorre há uma década, usada apenas para produzir superávit e estabilizar a relação dívida/PIB. Pela paranoia da inflação, um programa como o PAC não tem o papel que poderia ter”, lamenta.

 

Fonte: Brasil Atual Com informações da Agência Brasil

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