Carnaval de resistência: escolas do Rio farão crítica contra Temer, reforma trabalhista e intolerância

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“Cabe a nós sambistas, historicamente marginalizados e excluídos, perseguidos pela cor de nossas peles, pela nossa fé ancestral e pela nossa batucada, o alerta, a resistência e o protesto”, diz comissão de Carnaval da Beija-Flor

 

O desfile das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro de 2018 promete ser um dos mais críticos à política brasileira dos últimos anos. A menos de um mês do Carnaval, três agremiações adiantam que levarão à Marquês de Sapucaí enredos de protesto ao momento atual do país.

Uma delas é a Paraíso do Tuiuti, que criticará as novas regras trabalhistas em vigor desde novembro. A escola também citará o decreto do Ministério do Trabalho que afrouxou as regras de fiscalização do trabalho escravo no país. No enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, a escola do bairro de São Cristóvão dirá que o Brasil negligenciou a existência da escravidão moderna.

O presidente Michel Temer será retratado como “vampiro” em uma das alegorias da escola. O peemedebista virá como um boneco gigante em cima de uma grande sacola de dinheiro.

A escola também contestará o movimento pró-impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff. Uma das alas da Paraíso do Tuiuti será de “patos amarelos batedores de panelas” em alusão à Fiesp. No rosto dos foliões, um nariz de palhaço. E acima deles, uma mão os manipulando como fantoches.

O Guerreiro da CLT e o protesto contra a reforma trabalhista, também da GRES Paraíso de Tuiuti

 

Não à intolerância

Beija-Flor de Nilópolis e Estação Primeira de Mangueira também terão enredos mais críticos neste ano.

No enredo “Monstro é aquele que não sabe amar – Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, a azul e branco nilopolitana abordará a intolerância social, em crítica ao modelo social, político e religioso do país.

“Cabe a nós sambistas, historicamente marginalizados e excluídos, sempre olhados com estranheza e preconceitos, perseguidos pela cor de nossas peles, pelo colorido de nossas roupas, pela nossa fé ancestral e pela nossa batucada, o alerta, a resistência e o protesto”, disse em nota a Comissão de Carnaval da Beija-Flor.

Já a Mangueira exaltará o carnaval e alfinetará o prefeito do Rio de Janeiro e bispo licenciado da Igreja Universal, Marcelo Crivella (PRB). Em alusão ao corte de verbas destinadas aos desfiles das escolas de samba, o enredo da verde e rosa em 2018 é “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”.

Carnaval é porta-voz de tensões na sociedade

João Gustavo Melo, jornalista e pesquisador do Carnaval, comenta que a contestação carnavalesca está presente, por exemplo, no quadro de Pieter Brugel, “A Luta do Carnaval contra a Quaresma” (1559), que questionava a austeridade religiosa católica. “O Carnaval se fortalece e se reafirma sempre historicamente em momentos em que há personalidades ou elementos que representam ideias conservadoras ou baseadas em determinados dogmas religiosos, como estamos vendo hoje no país, em que política e religião estão se misturando de forma nefasta. Não à toa, o Carnaval mete tanto medo nos detentores do poder. É, como disse Goethe, ‘o Carnaval é uma festa que o povo dá de presente a si mesmo’. E sendo assim, torna-se muitas vezes porta-voz de tensões latentes na sociedade.”

O pesquisador vê o Carnaval 2018 como uma resposta à onda conservadora que se ergueu no país e no mundo. “Por reunir milhares de pessoas em espaços públicos, como ruas, praças e avenidas, o Carnaval tem uma grande capacidade mobilizadora em torno da alegria e também, em certa medida, contra o poder institucionalizado.”

Fontes: Poder360 e Jornal do Brasil

 Confira a letra do Samba Enredo 2018 da GRES Paraíso do Tuiuti

“Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?”

G.R.E.S Paraíso do Tuiuti

Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado
Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz

Eu fui mandiga, cambinda, haussá
Fui um Rei Egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se plantava gente

Ê Calunga, ê! Ê Calunga!
Preto velho me contou, preto velho me contou
Onde mora a senhora liberdade
Não tem ferro nem feitor

Amparo do Rosário ao negro benedito
Um grito feito pele do tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor

E assim quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

Meu Deus! Meu Deus!
Seu eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação

 

Confira a nota oficial da Comissão de Carnaval da Beija-Flor de Nilópolis sobre a intolerância.

“Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”

A ficção do monstro do Dr. Frankenstein nos coloca frente a frente à nossa capacidade de repudiar o que é estranho e diferente, de negar amor ao que não compreendemos.

O ser criado em laboratório a partir de pedaços de gente costurados rusticamente, e da ausência de ética e de limites, não foi reconhecido como um semelhante porque possuía aparência anormal e feia e, acabou sendo excluído, repudiado e renegado pelo próprio pai.

A estranha criatura, abandonada, sozinha, incompreendida e entregue a própria sorte, se transformou em anjo caído, revoltado pela falta de amor.

Mas, quem é o verdadeiro monstro nessa estória? A criatura de aparência repugnante, ou o criador, com seu egoísmo, seu orgulho, sua arrogância e seu coração corrompido?

Essa obra vai completar 200 anos, mas tem muito a nos dizer das diversas mazelas que atualmente corroem a integridade moral e espiritual de uma sociedade onde a desigualdade se alimenta do descaso, formando uma geração dominada pelo caos, vitimada pelo abandono e que vive a mercê de seres humanos bestiais que menosprezam tudo e a todos que lhes parecem inadequados e fora dos padrões estabelecidos.

O monstro do Dr. Frankenstein é a nossa realidade invertida, é a nossa culpa escancarada e jogada em nossas caras, mas que da qual fugimos e negamos qualquer responsabilidade. A criatura é o nosso espelho da vida refletindo nossas falhas mais gritantes, nossa falta de amor com o que nos cerca e com o próximo, e o nosso desrespeito às diferenças.

Somos parte de um sistema doentio, gerador de criaturas que falam línguas diferentes e aparentemente indecifráveis para os governantes, e que perambulam incompreendidas e esquecidas pelos becos, ruas e vielas dessa selva de pedra que um dia já foi o paraíso.

Mas, o sonho de uma criança ainda é pintar o futuro em folhas brancas da imaginação e traçar o mundo inteiro na palma da própria mão. Porém o que vemos são crianças abandonadas pelos pais, longe das escolas, vendendo balas nos semáforos ou se transformando em pivetes e disparando balas de armas que cospem fogo e dor. Por sua vez, os filhos jogam os pais idosos em asilos, feito fardos pesados demais, numa espécie de reflexo invertido.

É a carência de amor escancarada pela ausência de opção ou pela falta de pão, levando irmão a matar irmão. São pedaços de família, soltos, desapegados, sem ligação. São retalhos de uma sociedade refém de uma violência cruel que corrói a nossa dignidade e espalha o medo que nos devora a alma em cenas trágicas que passam diante de nossos olhos como um filme de terror, retratando vidas que se perdem num estalar de dedos em cenários reais e angustiantes. São as casas gradeadas, feito fortalezas de proteção, onde temos a sensação que nós é que estamos na prisão, numa banalização do mal, do sofrimento alheio e da própria vida humana, que transforma a luta diária, em luto constante.

São os Cavaleiros do Apocalipse político, camuflados com ternos, gravatas e hipocrisia, cavalgando no lombo da ambição e espalhando a falta de esperança. São as filas, as falhas e falcatruas alimentando saúvas e adoecendo a saúde; são zumbidos perdidos, sem direção, assustando a população e matando o futuro na nação. É a paz escondida na tristeza de cada olhar, na saudade doída dos que se foram, na fatalidade do silêncio dos que já não podem chorar. É o refugiado da seca que ainda não encontrou a terra prometida; é o brasileiro acuado, sem ter para onde fugir. Mas, na delação do “boca de sabão”, certo e errado pode ser apenas uma questão de ocasião.

Será que há salvação?

Será que no final do túnel haverá luz?

Ou será que carregaremos eternamente essa cruz?

Sentado na escadaria, um pedinte estende as mãos implorando esmolas, disputando com terços e santinhos a atenção de quem passa para se ajoelhar diante do altar de ouro; numa encruzilhada adiante, aproveitadores da boa fé despacham oferendas sem axé que servem para aliviar a fome e a sede do morador de rua; enquanto falsos profetas, em templos colossais, cobram dízimos celestiais, perseguem crenças diferentes, sufocam manifestações culturais e fomentam uma espécie de “Guerra Santa”: o sagrado versus o profano, a batucada proibida, a roda de samba coibida, a bebida no boteco; tudo é coisa do “coisa ruim”!

Porém, tudo que se constrói ou se destrói, se começa pela base, porque se não se fortalece a base, toda a edificação estará fadada ao desmoronamento. E a base, a estrutura de uma sociedade é a cultura. É preciso voltarmos às nossas raízes e nos reinventarmos. E se reinventar não significa mudar a essência ou renegar as origens. Reinventar tem um quê de renascimento, de tornar a ser criança, de redescobrir o poder de amar. Somente o amor e a valorização da cultura impedirão que os monstros da nossa sociedade continuem surgindo, se multiplicando e ameaçando o que temos de mais autêntico.

Cabe a nós sambistas, historicamente marginalizados e excluídos, sempre olhados com estranheza e preconceitos, perseguidos pela cor de nossas peles, pelo colorido de nossas roupas, pela nossa fé ancestral e pela nossa batucada, o alerta, a resistência e o protesto. Algumas vezes nos negaram a alma, outras tantas nos deram uma alma demoníaca, mas nunca conseguiram nos calar, silenciar as nossas vozes e os nossos tambores, porque somos das ruas, das praças, dos botecos, somos malandros boêmios e carregamos na alma a alegria que debocha das dificuldades, mas, se for o caso, afogamos as tristezas com uma cerveja bem gelada.

É chegada a hora de juntarmos os retalhos das nossas consciências que deixamos no baú empoeirado do nosso comodismo e costurarmos as fantasias dos abandonados e dos excluídos. Nesse cortejo popular, os verdadeiros monstros da nossa sociedade desfilarão sem máscaras para serem reconhecidos e malhados na quarta-feira de cinzas!

Que a Maria, a nossa Pietá, com seu filho nos braços e a lata d’água na cabeça, seja o retrato da luta de todos que apenas desejam ser amados e respeitados.

Que as ruas voltem a ser o grande tabuleiro da pluralidade da nossa gente, onde as peças dançarão ao som de uma batucada democrática. Que o nosso “rei” que é Momo, que é da folia, que é do povo, junte realeza e “peões”, derrube a “torre” da intolerância e dê um xeque-mate na tristeza. E assim, a Escola de samba e a comunidade, ali costuradas pelo amor a nossa cultura, se tornarão um só corpo novamente e o samba triunfará mais vivo do que nunca.

Que nesse arrastão de alegria, as drags e meretrizes encontrem um amor de carnaval; o velho arlequim nunca desista de beijar a colombina; o malandro continue caindo de paixão pela sedutora cabrocha e o pierrot, levante a cabeça, dê a volta por cima e, dance apaixonado com a passista formosa. Porque o samba é o palco mais democrático da nossa cultura popular e une irmãos de todos os cantos e bandeiras, festejando as diferenças e celebrando a paz sob um céu azul e branco.

Mas, se ainda assim você nos descrimina e não entende o nosso jeito de ser feliz, não nos leve a mal, o monstro é você!

Largue o nosso carnaval!

Afinal, monstro é aquele que não sabe amar!

Comissão de Carnaval: Laíla, Cid Carvalho Bianca Behrends, Victor Santos, Rodrigo Pacheco e Léo Mídia