Banquetaço é resposta à ração humana de Doria

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Refeições produzidas por chefs renomados com alimentos que seriam descartados viraram milhares de refeições para dar um recado ao prefeito: “É hora de soterrar as maneiras irresponsáveis e aventureiras de enfrentar o problema”

 

Uma imensa fila contornava parte do Teatro Municipal de São Paulo, na região central, bem na hora do almoço de quinta-feira 16. Um grande grupo de chefs organizava uma sequência de pratos de cardápio rigorosamente pensada para ter o melhor da gastronomia: cores, sabores, cheiros. E, principalmente, ser saudável. Farofa de ora-pro-nóbis e de maracujá, bolinho de batata, massa com molho pesto de Plantas Comestíveis Não Convencionais (PANC), charuto, cuscuz e feijão estavam entre os pratos servidos. Para sobremesa, doce de banana e sorvetes de fruta. A reportagem é da Rede Brasil Atual.

O Banquetaço foi organizado por agricultores, ativistas da segurança alimentar e chefs, em rechaço à proposta – já descartada – do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), de fornecer um granulado nutricional ultraprocessado para a população de baixa renda e os estudantes das escolas municipais. “É hora de soterrar as maneiras irresponsáveis e aventureiras de enfrentar o problema da alimentação das populações de baixa renda”, diz o manifesto do ato. Os alimentos foram arrecadados junto aos entrepostos, centros de abastecimentos e hortas urbanas.

A ideia da gestão Doria era receber doações de sobras de alimentos que seriam descartados pela indústria ou comércio e processá-los para produzir um “granulado nutricional” a ser distribuído para a população de baixa renda. Em troca, os “doadores” receberiam benefícios econômicos e isenção de impostos. Em entrevista ao programa Canal Livre, da TV Bandeirantes, na madrugada do dia 6 de novembro, o prefeito admitiu que errou na proposta e descartou oficialmente a ideia.

A Política Municipal de Erradicação da Fome e de Promoção da Função Social dos Alimentos foi estabelecida pela Lei 16.704, sancionada em 8 de outubro. A partir dela, a prefeitura elaborou o projeto Alimento para Todos, em parceria com a Plataforma Sinergia. Em seu site, a Sinergia informa ter desenvolvido “um sistema de beneficiamento de alimentos que não são comercializados pelas indústrias, supermercados e varejo em geral. São alimentos que estão em datas críticas de seu vencimento ou fora do padrão de comercialização”.

“Banquetaço é uma grande celebração da vida. E a intenção é sensibilizar a opinião pública, a população e os políticos de que alimentação de verdade é aquela que a gente faz em conjunto, que aproveita integralmente os alimentos e que respeita a natureza. Alimentação não é só processar um conjunto de alimentos em um preparado alimentício. A farinata era só um complemento que não contribuía para combater a fome. Foi produzida muito mais no sentido de as empresas descartarem o resíduo da sua produção”, explicou o membro da comissão executiva do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (Comusan-SP) André Luzzi.

Segundo ele, a ideia foi mostrar que é possível produzir refeições saborosas e de boa qualidade, ao mesmo tempo em que se evita o desperdício de alimentos. “Uma política de combate ao desperdício passa por planejar melhor a produção, comprar de pequenos produtores e, havendo uma sobra de alimentos, favorecer os bancos de alimentos, as cozinhas comunitárias, os restaurantes populares”, afirmou Luzzi. O conselheiro destacou ainda que o grupo defende a implementação do Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional da cidade de São Paulo.

“A gente acompanha essa articulação da farinata desde 2012. Eles não foram ouvidos na gestão de (Gilberto) Kassab (PSD), não conseguiram espaço na gestão (do ex-prefeito Fernando) Haddad. Nossa via de combate ao desperdício dos alimentos é mais complexa, difícil, mas é a mais sólida, porque ela é de distribuição, manejo, gestão, direcionamento e fomento de oportunidades para esse ‘desperdício’ ser distribuído, cozinhado e comido como comida de verdade. E não uma farinha ultraprocessada”, explicou a chef da Escola Brasileira de Ecogastronomia e conselheira do Comusan-SP, Fabiana Sanches.

Edvaldo Gonçalves, membro da coordenação do Movimento Nacional da População em Situação de Rua, comeu e aprovou. “Comida tá ótima. Não tem nenhuma diferença de uma comida feita com produtos ‘bons’. E, com certeza, é muito melhor que qualquer farinata. O povo não quer ter fome, mas também quer comida boa”, afirmou.

O ato também reivindicou que a gestão Doria renove o Programa Operação Trabalho (POT), na linha Hortas e Viveiros da Comunidade; o aumento do orçamento destinado à Coordenadoria de Segurança Alimentar e Nutricional (Cosan) – que teve seu orçamento reduzido em 94% na proposta orçamentária para 2018 –; a criação de programas de formação continuada em agroecologia e permacultura, promovidos, principalmente, pela Escola de Jardinagem (SVMA) e pelo programa Escolas Estufa.

Que retome políticas que vinham sendo desenvolvidas nos últimos anos e revogue a Política Municipal de Erradicação da Fome e de Promoção da Função Social dos Alimentos, estabelecida pela Lei 16.704. Os agricultores de São Paulo também cobram a manutenção das Casas de Agricultura Ecológica (CAE), que dão assistência técnica para os agricultores do município. Atualmente, São Paulo possui duas CAEs, nas zonas sul e leste. Outra reivindicação é a retomada do Programa de Agricultura Urbana e Periurbana (Proaurp).

O Proaurp não está descrito no orçamento de 2017. Nem na proposta orçamentária para 2018. O item “Ações, Projetos e Planos de Apoio à Agricultura Urbana e Periurbana”, no orçamento deste ano, tinha previsão de R$ 350 mil. Mas foi integralmente congelado pela gestão Doria. Outro item é o “Entidade MUDA SP, para Realização de um Projeto Viva a Agroecologia em SP, com a Temática de Agricultura Urbana e Agroecologia”, com orçamento de R$ 150 mil, dos quais R$ 100 mil a gestão Doria teria executado.

fonte: Seeb SP